quinta-feira , 21 setembro 2017
O mar está na moda e na cultura, pelo futuro do planeta
Gabriele Meirelles comenta o processo de desenho e confecção das peças (Foto Adriano Rosa)

O mar está na moda e na cultura, pelo futuro do planeta

Por José Pedro Martins

Campinas, 5 de fevereiro de 2017

Latitude 23*46´13″ Sul, Longitude 45*24´12″ Oeste. As coordenadas são do local onde foi resgatado no final de 2016 um pedaço de lona de embarcação, no bairro Pontal da Cruz, em São Sebastião, Litoral Norte de São Paulo. Transportado por 260 quilômetros até Campinas, no interior do estado, o tecido nada usual foi transformado em uma das peças confeccionadas no início de 2017 nas oficinas da Santa Costura de Todos os Panos. A linha exclusiva de roupas, assinada pela estilista e proprietária da grife Gabriele Meirelles, será lançada na próxima terça-feira, dia 7 de fevereiro, e é mais uma expressão cultural da crescente preocupação com as múltiplas ameaças aos mares e oceanos, sobretudo no caso do gigantesco descarte diário de lixo.

A estilista desenhou e as costureiras da grife dedicada ao público feminino produziram quatro tipos de peças de roupa: saia, calça, blazer e bermuda. Também foram concebidas bolsas de uma lona mais dura, azulada, revestidas com redes de pescar camarão, igualmente recuperadas no Litoral Norte paulista, mas desta vez no Estaleiro Ordario, no rio Juqueriquere, em Caraguatatuba.

Gabriele Meirelles admite ter sido um desafio trabalhar com as lonas como matéria-prima. “Nós trabalhamos com tecidos muito mais leves. Houve uma certa dificuldade em passar as lonas pelas máquinas de costura”, conta a estilista. Como não era viável usar a lona mais grossa para roupas, o material foi utilizado como base para as bolsas. As alças para as bolsas foram fabricadas com o apoio de um artesão da feira do Centro de Convivência Cultural, no bairro Cambuí.

O reuso de materiais é uma novidade para a Santa Costura de Todos os Panos, mas a grife sempre esteve antenada com os conceitos da moda sustentável ou slow fashion, que leva em conta os cuidados com a origem da matéria-prima, com as questões sociais e ambientais presentes na cadeia produtiva. “Nós temos parceria com costureiras locais, a nossa produção é pequena e também comercializamos em nossa loja produtos de outras marcas que consideram os mesmos conceitos”, lembra Gabriele Meirelles.

Roupas e bolsas produzidas pela Santa Costura de Todos os Panos (Foto Adriano Rosa)

Roupas e bolsas produzidas pela Santa Costura de Todos os Panos (Foto Adriano Rosa)

A estilista campineira formou-se em 2006 no curso técnico em moda do Senac. Trabalhou em outras confecções e em lojas, o que contribuiu muito para o seu amadurecimento como estilista e empreendedora, como ela reconhece. Em 2010 nasceu a Santa Costura, que funcionou inicialmente em uma das lojas da charmosa galeria Toca da Vila, no Cambuí. Já no ano seguinte, circulando pelo bairro, encontrou uma casa que pareceu perfeita, na rua Vieira Bueno, 156.

“Nem acreditei quando vi. Era o que eu sonhava”, diz a estilista. A casa antiga passou por reformas para receber as oficinas de costura e o espaço da loja. O projeto aconchegante permitiu a manutenção, nos fundos, de um pé de acerola e outro de fruta-do-conde, cujos frutos são sazonalmente saboreados pela equipe de colaboradores e clientes. Toda a clientela, aliás, foi comunicada sobre o grande evento de 7 de fevereiro, em que também será lançada a primeira linha de biquínis da Santa Costura.

Uma pessoa fundamental nesse momento novo vivido pela Santa Costura de Todos os Panos e por Gabriele Meirelles terá presença de honra. É o publicitário Luiz Carlos Mosso Cabral, também conhecido como Caio ou Capitão Cabral, idealizador da produção de roupas a partir de lona de embarcação e redes de pesca.

A estilista relata os desafios para a execução das bolsas, com a lona mais dura e a rede de pesca (Foto Adriano Rosa)

A estilista relata os desafios para a execução das bolsas, com a lona mais dura e a rede de pesca (Foto Adriano Rosa)

Dono de agência de publicidade digital em Campinas, Caio mora há anos no Litoral Norte e em 2008 começou, com um grupo de amigos em São Sebastião e Caraguatatuba, um trabalho de retirada de lixo do mar e de educação ambiental. “Em nossas navegações e mergulhos, percebemos como a questão do lixo no mar é um problema cada vez mais sério. E resolvemos fazer algo concreto, para alertar a sociedade”, afirma.

O grupo de amigos criou então a Mar Limpo, organização dedicada a “abraçar o mar, a mostrar como ele é bonito e importante”. “Vaso sanitário, móvel e muito plástico. É impressionante o que encontramos no mar”, lamenta Caio.

No final de 2016, conta o publicitário-navegador, apareceu a oportunidade de apresentar a ideia da linha de roupas para Gabriele. Não demorou muito e, projeto aceito, Caio levou o material para Campinas. “A ideia era que as roupas fossem feitas com os materiais como foram encontrados e foi o que aconteceu”, comemora Caio, que diz ter ficado impressionado com o resultado alcançado. “As peças ficaram lindas, a Santa Costura foi maravilhosa”,  exalta. “Pretendemos produzir as peças, a partir da linha desenhada pela grife, e os recursos serão aplicados em nossas ações em defesa do mar”, completa o entusiasmado Capitão Cabral.

Capitão Cabral, da Mar Limpo: atitude em defesa da vida marinha (Foto Divulgação)

Capitão Cabral, da Mar Limpo: atitude em defesa da vida marinha (Foto Divulgação)

As peças desenhadas e executadas pela Santa Costura de Todos os Panos não escondem, de fato, a origem do material. Muito pelo contrário. Saia, calça, blazer e bermuda expõem as marcas que o longo tempo de uso deixou nas lonas de embarcação. E, para coroar, as peças trazem, impressas, as coordenadas registradas em GPS, do local onde as lonas e redes foram retiradas.

Um dos princípios sagrados da moda sustentável, ou slow fashion, é a atenção com a origem das matérias-primas. É uma forma de verificar se, na fonte, os materiais não foram, por exemplo, processados com uso de mão-de-obra escrava e/ou infantil ou com degradação ambiental. O preceito foi levado muito a sério na cooperação entre a Santa Costura de Todos os Panos e a Mar Limpo. Se o ideal é que o lixo não chegue ao mar, o que depende de políticas muito mais sérias nas cadeias de produção, consumo e reprocessamento, os dois parceiros procuraram traduzir em roupas – um dos principais emblemas culturais de um povo ou de uma sociedade – a denúncia dos sérios prejuízos que estão sendo provocados pelo descarte criminoso de resíduos nos mares e oceanos, a grande base da vida na Terra.

PLÁSTICO, UM ASSASSINO INDESTRUTÍVEL NOS MARES

Tartarugas cuidadas na base do Projeto Tamar, em Ubatuba (Foto Adriano Rosa)

Tartarugas cuidadas na base do Projeto Tamar, em Ubatuba (Foto Adriano Rosa)

Não muito longe de onde lonas de embarcação e redes de pesca foram retiradas, no mar do Litoral Norte de São Paulo, os efeitos nocivos do lixo para a vida marinha são detectados e combatidos há tempos pela equipe técnica e parceiros da base do Projeto Tamar em Ubatuba. São frequentes os casos de tartarugas marinhas encontradas pelos profissionais do Tamar, ou identificadas por pescadores, com saúde seriamente abalada, ou muitas vezes mortas, por impactos causados pelo lixo, particularmente no caso do plástico.

A média de tartarugas levadas para o Tamar em Ubatuba para tratamento é de 120 a 130 por ano, “e metade chega com alguma quantidade de lixo no trato digestivo”, informa José Henrique Becker, coordenador técnico da base. Em 2016 mais de 300 animais foram encaminhados à base, em função do início de um projeto de monitoramento da biodiversidade encontrada entre Santa Catarina e Litoral Norte paulista, vinculado à exploração das camadas de pré-sal.

Tampinhas, lacres, embalagens em geral e plástico, muito plástico. São os materiais encontrados no sistema digestivo das tartarugas e que, se não as levam à morte, provocam grandes estragos em sua condição sanitária, lamenta o coordenador da base do Tamar. Um primeiro impacto, cita, é a obstrução do aparelho digestivo. O animal não se alimenta direito e enfraquece, ficando muito mais suscetível a doenças e à ação de predadores.

Outra consequência é o conjunto de ferimentos que o lixo pode imprimir nas paredes do estômago ou intestino, podendo levar a infecções que, se generalizadas, chegam a causar a morte da tartaruga. Mais um efeito, diz Becker, é a sensação de saciedade que o animal tem, quando consome muito lixo. De novo ele pode ficar enfraquecido e vulnerável a doenças.

Pescadores são parceiros do Projeto Tamar em Ubatuba (Foto Adriano Rosa)

Pescadores são parceiros do Projeto Tamar em Ubatuba (Foto Adriano Rosa)

Um quarto e devastador impacto, adverte o especialista, está relacionado diretamente à presença de plástico no sistema digestivo das tartarugas marinhas. O metabolismo não é completo, a presença de gases é frequente e o animal apresenta uma tendência maior a flutuar na superfície, pois a sua imersão fica dificultada. “Os animais ficam então mais expostos a predadores ou a acidentes com embarcações”, completa José Henrique Becker.

O coordenador técnico da base do Tamar em Ubatuba ressalta que, efetivamente, o ideal é a consolidação de políticas e mudanças culturais visando uma expressiva redução na geração de resíduos. O que passa por transformações em hábitos e práticas de produção, consumo e descarte. Entretanto, o lixo continua chegando e de forma assustadora no ecossistema marinho e, neste cenário, é essencial o fortalecimento de projetos e programas de reuso, reciclagem e, claro, educação ambiental.

É o que o Projeto Tamar tem feito, em todas as suas bases no litoral brasileiro. Em Ubatuba, o Projeto Tamar tem ampliado suas parcerias. É parceiro, por exemplo, do Instituto Arcor Brasil no Programa Amigos do Mar, que contempla várias ações, com foco na educação ambiental.

Uma atenção especial nas ações relacionadas ao descarte e destinação adequada de resíduos, diz José Henrique Becker, é dada para o caso do plástico. Depois de comido pelo animal, o plástico continuará presente no ambiente marinho por décadas ou séculos, afetando outros animais, impactando a cadeia alimentar que é uma das bases das redes de vida no planeta.

PROTEGER OS OCEANOS E MARES É UM DOS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 

Proteção dos oceanos e mares é desafio urgente para a comunidade internacional (Foto Adriano Rosa)

Proteção dos oceanos e mares é desafio urgente para a comunidade internacional (Foto Adriano Rosa)

Conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Este é o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 14, estipulado pelas Nações Unidas. Os 17 ODS valem para o período de 2016 a 2030 e são sucessores dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que vigoraram entre 2001 e 2015. A gestão sustentável do lixo que chega ao mar é naturalmente uma das metas associadas ao ODS 14.

A ONU lembra que os oceanos e mares cobrem três quartas partes da superfície do planeta e somam 97% das águas. Mais de 3 bilhões de pessoas dependem da diversidade biológica marinha e costeira para a sua sobrevivência. Oceanos e mares são o habitat de 200 mil espécies identificadas, mas as cifras reais podem chegar a milhões. As águas marinhas constituem a maior fonte de proteína para 2,5 bilhões de pessoas. A pesca marinha emprega de forma direta ou indireta 200 milhões de pessoas.

Por outro lado, a ONU entende que a pesca realizada de forma insustentável contribui para o acelerado desaparecimento da biodiversidade marinha. Muitas espécies de peixes já foram ou estão sendo extintas. As estimativas dos especialistas são de que 40% dos oceanos estão sendo diretamente afetados pelas atividades humanas. O aquecimento global de origem humana, por exemplo, afeta o equilíbrio de suas águas, que são responsáveis pela absorção de 30% do dióxido de carbono gerado por atividades antrópicas. Se os oceanos e mares perderem essa capacidade de absorção, as mudanças climáticas terão consequências imprevisíveis.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) calcula que anualmente mais de 7 milhões de toneladas de resíduos são depositadas em oceanos e mares e entre 60 e 90% são plásticos. O PNUMA também calculou que são encontrados, em alguns pontos, 13 mil fragmentos de plástico por quilômetro quadrado nos oceanos. O informe “Lixo no Mar” da Greenpeace estimou que somente 15% do lixo chegam às praias. Mais de 80% do lixo marinho são originários de terra firme.

As redes de pesca são um dos desafios relacionados ao acúmulo de lixo nos oceanos, diz a ONU. As redes continuam “capturando” as espécies marinhas, mesmo depois de abandonadas. Ficou célebre o caso de uma foca monge, a última encontrada no arquipélago das Chafarinas, na costa da Espanha, que apenas foi liberada de uma rede que a prendia após uma complicada operação do Exército.

A EPA, agência ambiental dos Estados Unidos, identificou 267 espécies marinhas que se “alimentam” de resíduos. O PNUMA calcula que a cada ano mais de 1 milhão de aves e mais de 100 mil mamíferos marinhos e outras espécies morrem pelo impacto letal do lixo. É o caso de muitas tartarugas marinhas encontradas e levadas para a base do Projeto Tamar em Ubatuba.

 

 

 

 

 

 

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