Crise hídrica de 2015 pode ser muito pior segundo a Agência Nacional de Águas e pesquisador da Unicamp
Nova cúpula dos recursos hídricos paulista reconhece a gravidade da situação (Foto Adriano Rosa)

Crise hídrica de 2015 pode ser muito pior segundo a Agência Nacional de Águas e pesquisador da Unicamp

Na ausência de chuvas significativas até o final do ano, a crise hídrica de 2015 no estado de São Paulo pode ser ainda pior, reiterou nesta quinta-feira, 13 de novembro, o professor Dr.Antônio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp. O especialista observa que nesta semana está chegando ao fim a primeira cota do Volume Morto do Sistema Cantareira e muitas das obras propostas pelo governo de São Paulo para resolver a crise são de longo prazo e, portanto, não equacionarão a situação do maior sistema de abastecimento da Grande São Paulo e que também tem impacto na bacia do rio Piracicaba, onde está a região de Campinas. Também nesta terça-feira, o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, participou de audiência na Câmara dos Deputados, e sustentou, igualmente, que o pior ainda pode estar por vir.

Tanto Zuffo como Vicente Andreu citam o fato de que em janeiro de 2014 os reservatórios do Sistema Cantareira, em seu conjunto, já estavam muito abaixo da média histórica. Esses reservatórios, formados por águas da bacia do rio Piracicaba e que abastecem metade da Grande São Paulo, estavam com menos de 30% de sua capacidade, menos do que o volume em janeiro de 2013 (menos de 50%) e janeiro de 2012 (menos de 70% da capacidade).

Ao longo de 2014, como o presidente da ANA demonstrou com um gráfico na audiência na Câmara dos Deputados, em todos os meses o volume útil do conjunto de reservatórios do Cantareira esteve muito menor do que nos anos anteriores. Esse volume útil foi de pouco mais de 20% em fevereiro (em relação a pouco mais de 50% em fevereiro de 2013 e mais de 70% em fevereiro de 2012), cerca de 15% em março (contra mais de 50% em mais de 70% no mesmo mês em 2013 e 2012), pouco mais de 10% em abril (contra mais de 60% e mais de 70%), 10% em maio (contra mais de 60% e mais de 70%), cerca de 5% em junho (contra 60% e 70%) e cerca de 2% em junho (contra pouco menos de 60% no mesmo mês em 2013 e mais de 70% em 2012).

Em julho o volume útil do Cantareira já estava praticamente zerado, contra mais de 50% no mesmo mês em 2013 e mais de 70% em 2012, e em agosto o volume útil já era negativo, com o abastecimento para metade da Grande São Paulo apenas assegurado pelo uso da primeira parte do Volume Morto. Em agosto de 2012 o volume útil era mais de 50% e em agosto de 2013, de mais de 70%. Em setembro e outubro o volume útil continuava negativo e continuará assim nos próximos meses, a menos que venham chuvas muito fortes até o final de 2015. Sem elas, em janeiro de 2015 o volume útil poderá estar em muito menos do que os menos de 30% em janeiro de 2014. Com isso, a crise hídrica de 2015 na região mais populosa e rica do Brasil tende a ser muito mais grave.

Obras de médio prazo – Nesta semana o governador Geraldo Alckmin apresentou, em encontro com a presidente Dilma Rousseff, um conjunto de oito obras para receber apoio do governo federal, estimado em mais de R$ 3,5 bilhões. São quatro obras para garantir o abastecimento na região de Campinas e quatro para a Grande São Paulo.

O professor Dr.Antônio Carlos Zuffo, da Unicamp, assinala que essas obras são em grande parte de médio e longo prazo, e que não terão repercussão imediata, portanto, no equacionamento da atual crise hídrica. São os casos, enumerou, das barragens de Pedreira e Duas Pontes, nos rios Jaguari e Camanducaia, e cuja construção demandará a desapropriação de imóveis em Campinas, Pedreira e Amparo.

Outra das obras sugeridas pelo governador para a região das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), onde está a Região Metropolitana de Campinas (RMC), é o transporte de águas do Aquífero Guarani. O professor Zuffo nota que essa possibilidade existe, mas que se trata de uma operação com dificuldades técnicas, como a necessidade de bombeamento através da área geológica conhecida como Depressão Periférica. Do mesmo modo,  comentou, é necessário equacionar o desafio representado pela presença de enxofre em alta quantidade em alguns pontos do Aquífero Guarani.

Algumas obras que constam do pacote, lembrou o professor Zuffo, já são hipóteses citadas há muito tempo, como a conexão dos reservatórios Atibainha (do Sistema Cantareira) e Jaguari, no rio Paraíba do Sul (significando mais uma transposição e bacias) e a construção de duas estações de água de reuso para fortalecer os sistemas Baixo Cotia e Guarapiranga. O próprio Zuffo estudou a questão da água de reuso para fortalecer o sistema Baixo e Alto Cotia no final da década de 1990.

Em geral são obras, portanto, de médio e longo prazo, reforçando a ideia de que, sem chuvas razoáveis nos próximos meses, para recompor parte dos reservatórios do Cantareira, a crise hídrica pode ser muito mais dramática em 2015. “A cada dia que passa, sem chuvas, este cenário é cada vez mais factível”, alerta o professor Zuffo.

 

Cenário cada vez mais desolador no Cantareira

Cenário cada vez mais desolador no Cantareira

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