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Visito-te e devoro-te à portuguesa
É na gastronomia que a cidade literalmente fisga o turista pelo estômago (Foto Divulgação)

Visito-te e devoro-te à portuguesa

Além da beleza e da importância histórica, Lisboa é para ser conhecida também à boa mesa

Por Eduardo Gregori

Campinas, 7 de março de 2018

Lisboa é uma cidade cosmopolita, lugar onde o idioma português é o oficial, mas, como um dos destinos mais procurados por visitantes de todo o mundo, é quase impossível não cruzar, principalmente em seus pontos turísticos, com gente falando outras línguas, do vizinho espanhol ao remoto islandês.

A sensação de quando visito a cidade é a de que o mundo parece, quase que simultaneamente, ter descoberto as belezas de um lugar tão pitoresco e tranquilo, erguido sobre calçadas de pedra e ao longo e das águas do Rio Tejo. A vocação de cidade aberta ao mundo não vem de hoje. Os portugueses sempre estiveram além de seu tempo, explorando mares, descobrindo novas terras e expandindo seus domínios, da África à China. Não é à toa que muitos dos costumes brasileiros são, na verdade, frutos da herança colonial lusitana, como as cantigas de roda, as festas juninas e até mesmo o Carnaval.

Rua Augusta: em Lisboa, moderno e tradição convivem em harmonia (Foto Divulgação)

Rua Augusta: em Lisboa, moderno e tradição convivem em harmonia (Foto Divulgação)

Se sempre vive um passo adiante, em um mundo regido pela tecnologia, Lisboa encanta, justamente por não deixar escapar aos olhos, ouvidos, ao coração e, principalmente ao paladar, um Portugal que ainda habita o imaginário do estrangeiro. Um imaginário alinhavado pelo fado visceral de Amália Rodrigues, que mesmo 20 anos após sua morte impregna as ruas estreitas da cidade, pelo animado e gracioso bailado do vira, pelos saborosos vinho verde e do Porto e pelos tradicionais bacalhau e pastel de nata.

Lisboa tem inúmeras atrações turísticas, como o histórico Elevador Santa Justa, no Centro, o Café A Brasileira, no Chiado, frequentado pelo poeta Fernando Pessoa, em Belém os emblemáticos Padrão dos Descobrimentos, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a sempre lotada doçaria Pastéis de Belém. Mas é na gastronomia que a cidade literalmente fisga o turista pelo estômago. Para um estrangeiro é quase impossível entender como um país tão pequeno tenha uma culinária tão rica e diversa. França e Espanha podem até se gabar de serem Mecas da alta gastronomia e de modernidades culinarescas feitas em tubos de ensaio, mas é justamente o tradicionalismo português que fascina tanto a quem senta à mesa lisboeta.

Açorda à alentejana: sopa de entrada (Foto Divulgação)

Açorda à alentejana: sopa de entrada (Foto Divulgação)

Se está nos seus planos visitar a capital lusitana, tenha em mente ganhar alguns quilos, pois não será fácil resistir às tentações que só a gastronomia portuguesa é capaz de servir. Mas tudo bem, as calorias extras podem ser compensadas no sobe e desce de Lisboa, também chamada de “Cidade das Sete Colinas”. Difícil mesmo será escolher por onde começar, diante de tanta variedade e sabores. E no tortuoso caminho para escolher onde e o que comer, me lembro daqueles desenhos animados, em que o aroma deixa as cozinhas dos restaurantes para hipnotizar quem está faminto. Para ficar exatamente igual, só falta mesmo ir flutuando.

Comer bem em Lisboa significa serviço completo, da entrada à sobremesa e claro, com banquete acompanhado de vinho verde, de preferência. Para abrir o apetite, nada melhor que uma sopinha como a açorda à alentejana, também chamada de sopa alentejana. Não existe uma receita única. Cada família prepara a sua, seja pela preferência por um determinado ingrediente, ou por tradição passada entre gerações. As açordas à alentejana mais conhecidas e saboreadas nos restaurantes de Lisboa são preparadas com peixes e bacalhau. A composição básica, no entanto, leva ovo, sal, azeite e pão.

Açorda como prato principal (Foto Graziella Delicato/Divulgação)

Açorda como prato principal (Foto Graziella Delicato/Divulgação)

Aqui vai uma dica para não confundir alho com bugalho, peça que a peculiaridade entre o português de Portugal e o brasileiro pode pregar em quem não está acostumado ao jeito de falar na terrinha. Açorda não é o mesmo que açorda à alentejana. Enquanto a alentejana é uma sopa servida como entrada, a açorda é um prato principal que se assemelha a um purê feito de pão caseiro e que pode ser de marisco, de bacalhau ou ainda de camarão.

Se não aprecia bacalhau e nem peixe, pode-se optar por outra entrada tão tipicamente portuguesa quanto a açorda à alentejana: o caldo verde. A sopa de couve-galega é bem conhecida no Brasil, mas o que muda entre um país e outro é que em Portugal se agrega ao caldo o chouriço e, no Brasil, a linguiça. O caldo verde é uma verdadeira instituição lusa, tanto que em 2011 foi reconhecido como uma das 7 Maravilhas da Gastronomia de Portugal. Uma dica bem típica é tomar o caldo acompanhado de uma taça de vinho verde tinto. Mais português que isso, só dançando o vira!

Caldo verde, verdadeira instituição lusa (Foto Divulgação)

Caldo verde, verdadeira instituição lusa (Foto Divulgação)

Depois de forrado o estômago, seja com uma açorda à alentejana, ou um caldo verde, é hora de partir para o prato principal. O nome pode até lembrar a bitoca, ou, um beijo no português do Brasil, mas em Portugal o bitoque é um prato daqueles que enchem os olhos e, bem verdade, o estômago, pois é muito bem servido. Estrela principal, o bife de carne bovina grelhado, vem acompanhado de batatas fritas, arroz, ovo frito, salada e ainda é decorado com azeitonas ou picles. Se o freguês não gostar de carne bovina, pode substituir por suína, mas se preferir algo mais light, como frango, aí meu caro leitor, deixa de ser bitoque. E não podemos esquecer que, em Portugal, pratos que levam carne ou salada devem ser degustados com um generoso fio de azeite.

Bitoque: prato muito bem servido (Foto Divulgação)

Bitoque: prato muito bem servido (Foto Divulgação)

Tomando emprestado a sábia expressão de Nelson Rodrigues, é “obvio ululante” tratar da gastronomia portuguesa sem deixar de mencionar o bacalhau. Confesso que, apesar de não comer peixe, o bacalhau feito à portuguesa literalmente me fisga e, quando estou em Portugal, ou no Brasil, quando bate aquela saudade da comidinha d’além mar, trato de me sentar à uma mesa e me fartar. As receitas que mais aprecio são: o gratinado bacalhau com natas, o à braz, acompanhado de batata-palha, ovos, e cebola e o bacalhau à Gomes de Sá, assado com batatas, leite, ovo e cebolas e ainda acompanhado de salsa e azeitonas.

Mas como os próprios portugueses dizem, o bacalhau pode ser feito de mil e uma maneiras. Tanto, que seria impossível eleger apenas uma única receita como a mais saborosa, ou que melhor representasse Portugal. Seja em Lisboa ou quem qualquer outra cidade do país, o que não vão faltar são opções para comer com a boca, os olhos e diria eu, até com a alma.

O bacalhau pode ser feito de mil e uma maneiras (Foto Divulgação)

O bacalhau pode ser feito de mil e uma maneiras (Foto Divulgação)

Visitar Lisboa ou outra cidade portuguesa não significa ter que comer bacalhau todos os dias. Se bem que, com tantas receitas, para mim, não seria lá uma má ideia. Mas, como escrevi anteriormente, Portugal tem uma gastronomia tão rica que, em apenas uma visita, será praticamente impossível provar de todos os seus sabores. Outra representante da identidade da culinária lusa é a carne de porco. Assim como o bacalhau, existem diversas receitas, todas, igualmente saborosas.

Carne de porco: outra tentação (Foto Divulgação)

Carne de porco: outra tentação (Foto Divulgação)

Eu, particularmente, gosto de bifes de carne de porco temperados com alho e sal e bem fritos no azeite quente e, antes de servir, ainda levam uma besuntada de mostarda. Não é uma receita portuguesa, mas fica muito saboroso. Voltando à mesa lusa, uma das receitas mais típicas é a carne de porco à portuguesa, que tem entre os ingredientes, alho, louro, sal, pimentão-doce e vinho branco. A carne, que leva uma boa porção de batata, é marinada e fica ainda mais tenra e praticamente derrete na boca. A versão alentejana ganha também amêijoas, uma espécie de molusco bem saboroso.

Para completar a tentação, o prato leva batatas, salsa, picles e azeitonas. Preciso falar do azeite? Acho que não! Depois de degustar uma saborosa açorda, se fartar com o bitoque, se deleitar com o bacalhau, ou com uma suculenta carne de porco à portuguesa, e tudo isso regado a um bom vinho verde, ainda é preciso reservar um espacinho para uma sobremesa. E nesse quesito, Portugal dá outro belo baile.

Pastel de nata, mais um dos símbolos de Portugal (Foto Divulgação)

Pastel de nata, mais um dos símbolos de Portugal (Foto Divulgação)

O turista pode até pedir um pastel de nata, afinal, o doce é um dos símbolos de Portugal, mas segundo o costume lusitano, o “pastelinho”é para se comer em outro momento do dia, principalmente à tardinha, e, melhor ainda se for acompanhado de um café. Em qualquer cafeteria ou padaria de Lisboa sempre há uma promoção envolvendo a dupla. É como em Minas Gerais, onde um bom café sempre pede um pão de queijo. Neste quesito, lusitanices e mineirices andam de mãos dadas! O bom é que um café acompanhado de pastel é bem baratinho, custa menos de 1 euro. E não esqueça, nunca peça um pastel de Belém, porque pastel de Belém é onde se faz o pastel mais conhecido de Portugal e que fica em Belém. Não estando na tradicional doçaria, peça pastel de nata.

O pudim lisboeta, sabor suave e consistência muito cremosa (Foto Divulgação)

O pudim lisboeta, sabor suave e consistência muito cremosa (Foto Divulgação)

Se pastel de nata é para outra hora, então que tal um pudim? Esqueça o nosso brasileiro pudim de leite condensado, que é extremamente doce. O preparo pode até lembrar, mas o pudim de leite, uma das sobremesas mais tradicionais de Portugal, tem sabor suave e consistência muito cremosa, que se desfaz deliciosamente na boca. Ao escrever este texto já me vem água na boca só de lembrar! Nesse verdadeiro manjar, o pecado brasuca do leite condensado tem como originais apenas leite, açúcar e nada menos que 12 ovos. Simples de fazer, mas divinal de saborear. Para encerrar essa irresistível epopeia gastronômica lusa, um cafézinho.

Lisboa tem tantas belezas e sabores a oferecer, que quantas vezes visitar a cidade, outros tantos lugares e manjares poderá provar! Como dizem os “tugas” Lisboa é “bué de fixe!”

* Eduardo Gregori é jornalista especializado em viagens e turismo, editor do site Eu Por Aí (euporai.com.br) e do programa Eu Por Aí no YouTube (youtube/edugregori)

 

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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