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Encontro de Siba com Rafa Carvalho: constelação, mar e primavera no Sarau da Dalva de maio
Sarau da Dalva,espaço de resistência (Foto Sabrina Sanfelice)

Encontro de Siba com Rafa Carvalho: constelação, mar e primavera no Sarau da Dalva de maio

O Sarau da Dalva vem sendo um importante ponto de resistência poética e de efervescência cultural na cidade de Campinas. O evento vive nesse mês de maio a sua 43ª edição e se aproxima de celebrar os quatro anos de existência. Será no dia 9 de maio, com o idealizador Rafa Carvalho, o compositor e instrumentista pernambucano Siba, o poeta e rapper Pow Litera-Rua e o multiartista Caco Pontes.

De fato, o Sarau da Dalva atua no mundo como todos seus demais projetos: de modo incomum, complexo e aparentemente controverso, muitas vezes. E como seja, são nessas iniciativas que o poeta atua diretamente em sua “aldeia”, parafraseando Leon Tolstoi. Com um livro de contos recentemente escrito e ainda não editado, falando das terras de suas origens e as de seus pais, inspirado na “gente de suas aldeias”, Rafa que esse mês desembarca em São Paulo com a mediação de um importante encontro literário, a seguir por todo mês de junho, e que tem levado seus trabalhos pelo mundo, também é remetido ao escritor russo por ser considerado anarquista por uns e espiritualista por outros. Considerações que acabam reverberando ao Sarau da Dalva. E quando perguntado sobre isso, ele diz: “Minha barba e minha calvície não chegam nem perto das de Leon. Minha literatura tão pouco. E eu tampouco sei o bastante de Tolstoi pra dizer qualquer coisa nesse sentido. Nem o bastante sobre mim. Mas sou libriano. E o Sarau da Dalva nasceu sob o Sol e o Ar mutável de Gêmeos. Isso também pode não dizer nada, mas na prática, o Sarau da Dalva há de ser sim um espaço de transformação. E a transformação deve passar pela transição de paradigmas. Do cartesianismo. Para o paradoxo; muitas vezes. Eu amo a minha ideia de Anarquia. Como amo a minha ideia de Espiritualidade. E ainda por isso, ao mesmo tempo em que o mundo é todo a minha casa, minha casa vai ser sempre aqui, o São Quirino, os arredores. E fazer poesia aqui é importante. É fazer poesia no mundo.”

O idealizador Rafa Carvalho (Foto Marina Barbim)

O idealizador Rafa Carvalho (Foto Marina Barbim)

Nessa edição de maio, o Dalva recebe a Siba, cantor, compositor e instrumentista pernambucano, que tem sido de muita relevância para o cenário artístico nacional, seja por suas inovações criativas, seja por sua relação e reverência às raízes, matrizes e tradições da cultura popular brasileira. Segundo Sabrina Sanfelice, uma das organizadoras e produtora do Sarau: “(…) tudo isso, mais a essência nordestina, faz da vinda de Siba algo muito afim ao Sarau. Cúmplice. E a consciência política demonstrada por ele também nos representa muito. Já que no Sarau da Dalva entendemos que todo ato é um ato político, que fazer arte é também fazer política. Admiramos a responsabilidade que Siba apresenta ter nesse aspecto. E tanto nisso, quanto nas suas raízes – e nessa ponte que faz entre o novo e o fundamento – as semelhanças com Rafa são grandes. Vai ser um ótimo encontro”.

Siba, multiartista pernambucano (Foto Zé de Holanda)

Siba, multiartista pernambucano (Foto Zé de Holanda)

Sobre a vinda de Siba, Rafa diz: “para nós, em Dalva, é uma honra receber ao Siba. Celebro esse encontro como uma chance de aprendizado. Ele já vem nessa estrada – que eu mal tô começando a trilhar – há muito tempo. É uma referência. E ele vem com Mestre Nico, que é um amigo querido. Estivemos juntos em 2010, no trabalho com Gilberto Gil, “Futurível”, em São Paulo, que pra mim foi um encaminhador de rios. Enfim, dois mestres! E a chance de tê-los perto, numa situação acessível a toda a comunidade, livre, gratuita, com toda a partilha possível que se apresenta adiante, e com todo o desafio de agirmos em total corresponsabilidade nisso, entre todas as pessoas presentes, consteladas ali, no dia, são grandes presentes pra nós”.

O rapper Pow Litera-Rua,  diretamente de Embu das Artes (Foto Divulgação)

O rapper Pow Litera-Rua, diretamente de Embu das Artes (Foto Divulgação)

O Sarau ainda conta com a presença do poeta e rapper Pow Litera-Rua, que vem diretamente da Favela do Jardim do Colégio, no Embu das Artes, para lançar seu livro “Lokomotivamente”. E com a visita do poeta e multiartista Caco Pontes, presente na segunda edição do Sarau da Dalva em 2014, e que retorna agora com sua performance “A Ordem dos Fatores Ocultos – XXI escritos d’uniVersos”, segundo ele: uma leitura metafísica ao vivo, para os mortos.

“Com Caco eu nunca tomei uma cerveja até o fim. Mas é um companheiro estimado de poesia, futebol, capoeira, protesto e bagunças ortográficas, semânticas, gramaticais, tropicalistas e antropofágicas. E Pow é um querido, guerreiro que representa o movimento que sonhamos aqui, que carrega consigo o signo forte do Sarau do Binho, pra que a gente bate cabeça aqui no Dalva sempre. Máximo respeito.” Rafa Carvalho, sobre as presenças de Pow e Caco Pontes nessa edição. E o Sarau como sempre conta com microfone aberto e todas as demais características que têm feito dele exatamente isso, que ele é: incomum, complexo, controverso, verso, vai ver anarquista, de repente espiritual. E por aí indo.

Arte de divulgação de Nau Frágil e um Sarau Praieiro, no Sesc Jundiaí (Foto Divulgação)

Arte de divulgação de Nau Frágil e um Sarau Praieiro, no Sesc Jundiaí (Foto Divulgação)

E o encontro de Rafa com Siba e Caco ainda se repete no dia seguinte. Dessa vez em Jundiaí, no Sesc da cidade, e sob a forma de mar em “Nau Frágil e Um Sarau Praieiro”. Tudo isso, enquanto Pow segue estrada para lançar seu livro nas Minas Gerais.

Sabrina Sanfelice atenta à importância das pessoas chegarem o mais cedo que puderem: “O Sarau da Dalva tem um movimento dinâmico, orgânico. Começa aos poucos, sem aviso – apesar da ritualística de Rafa, que tem os seus propósitos, certamente. Vai começando em níveis, camadas. E desse mesmo jeito, ele termina. Mas com as pessoas chegando mais tarde e nosso compromisso de respeito à vizinhança, sem som amplificado a partir das 22h, muita gente não consegue expressar ali sua partilha, a partir de um certo momento, ao passo em que no início o microfone fica sempre muito disponível”.

Em seu texto de apresentação da edição de maio, Rafa se lembra das tantas lutas vinculadas historicamente ao mês 5 do ano. E nós aqui lembramos de que ele estava em Madri na época do 15-M na Espanha, em 2011, compondo a antologia dos Poetas del 15 Mayo. E lembramos também de quando falamos de uma “Primavera Campineira de Saraus”, anos atrás, quando em parceria com o Sesc, começou uma série de ações na cidade, que depois foram às praças e ruas, enquanto preparava o advento do Sarau da Dalva. Quase pressentindo o que hoje se deu: Campinas florescendo em Saraus de Poesia e iniciativas culturais diversas. Muitas dessas por pessoas em interdependência, nas comunidades, unidos por demandas e temáticas comuns, mas sem a participação direta – e sobretudo sem a dependência – de instituições governamentais ou privadas.

Caco Pontes, que estará em Campinas e Jundiaí (Foto Jefferson Valério)

Caco Pontes, que estará em Campinas e Jundiaí (Foto Jefferson Valério)

Olhando para os trabalhos de Pow, Caco, Siba, Nico e Rafa, ficam evidentes olhares e ações às questões de moradia, da ocupação da rua e dos espaços públicos, da reforma agrária e de outras temáticas sociais primordiais ao nosso tempo. Promessa de um encontro oportuno, com todas as demais pessoas interessadas, para mais um Dalva de maio.

Serviço:

Sarau da Dalva – quarta-feira, dia 9 de maio. A partir das 19h

Bar do Manoel – Estrela Dalva, Av. Lafayete Arruda Camargo, 767. Parque São Quirino, Campinas

Telefone: (19) 3296-4912

 

 

*mais informações podem ser obtidas nas páginas do Bar e do Sarau (Facebook e Instagram)

 

**mais informações sobre “Nau Frágil e Um Sarau Praieiro” no Sesc Jundiaí (dia 10 de Maio e também gratuito), nas páginas de Rafa Carvalho (Facebook/Instagram) e no site do Sesc SP, em “Programação”.

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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