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LISBOICES: Portugal é uma mentira
O jornalista Eduardo Gregori em Lisboa (Foto Arquivo Pessoal)

LISBOICES: Portugal é uma mentira

Atravessei o Atlântico em uma das minhas muitas viagens pelo mundo. Mas é a primeira vez que decido fixar de verdade residência fora do Brasil. Ah, o Brasil! Não quero falar sobre o que acontece por aí nos últimos meses. Tenho saudade, é verdade, mas saudade dos meus entes queridos e dos meus amigos, apenas.
Muitos pessoas, quando souberam que eu iria viver aqui, do outro lado das margens do Tejo, me disseram que eu me arrependeria. “Os portugueses são mal educados e não gostam dos brasileiros. Há muito preconceito. O país é atrasado etc”, foi o que ouvi.
Confesso que não dei muita bola, pois sou casado com um português e nestes quatro anos em que estamos juntos, Paulo nunca foi mal educado comigo ou teve algum tipo de preconceito por eu ser cidadão brasileiro. Aliás, me confessou que irá pedir sua cidadania brasileira, fato que me deixou emocionado. Ele me disse certa vez que nunca havia mantido relacionamento com brasileiros por que nunca calhou. Bem, com o primeiro foi pimba! acabou casando.
Estou em Portugal há um mês, mas já estive em terras lusitanas diversas vezes e sempre tive vontade de voltar. Neste tempo, não houve sequer uma situação em que eu tivesse sido tratado de forma diferente, ou me sentido diminuído pela brasilidade que corre nas minhas veias.
Muito pelo contrário. No supermercado, digo bom dia ou boa tarde e a atendente me responde com um sorriso no rosto, me desejando também o mesmo. No posto de saúde, me pediram desculpas por não estarem aceitando mais inscrições e me encaminharam a outro mais próximo, com atendimento 24 horas. Aliás, me ligaram do posto informando que minha vacina contra o tétano não constava nos registros. Então, me solicitaram que eu fosse ao posto tomar.
Ao cruzar com meus novos vizinhos no prédio em que vivemos e os quais eu nunca havia visto na vida, novamente sorrisos e cumprimentos. E nada de cara feia quando ouvem meu sotaque meio mineiro meio paulista.
Comprei uma mesa que veio parcialmente estragada e ligo para a loja, que me informa que em dois dias uma nova será entregue na minha casa. A minha senhoria, sem questionar, me manda uma pessoa para consertar um pequeno vazamento de água na pia da cozinha. Assinei a internet no domingo no final da tarde e na segunda pela manhã á estavam a instalar.
Vou a Lisboa e do barco salto para o sistema do metrô. Se quero ir para Setúbal, resolver as questões da minha cidadania portuguesa, mudo para o trem. Da estação dos barcos até em casa não preciso de ônibus, vou a pé com o Tejo como testemunha.
E aquele vinho português que adoro e pago mais de R$ 50,00 no Brasil e aqui sai por 2,99 euros?
Estou começando a crer que Portugal é uma mentira muito baseada num ranço colonial que há muito deixou de existir. É claro que Portugal não é um país completamente perfeito. mas me conta, existe algum lugar no mundo que seja? Confesso, que mal cheguei, mas já quero muito criar raízes aqui e seguir minha vida até quando der.
Para quem fala mal de Portugal, um conselho: viva a sua mentira enquanto aqui estou a aproveitar imenso, como dizem os portugueses.

 

Sobre Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista formado pela Pontifícia Católica de Campinas. Nasceu em Belo Horizonte e por 30 anos viveu em Campinas, onde trabalhou na Rede Anhanguera de Comunicação. Atualmente é editor do blog de viagens Eu Por Aí (www.euporai.com.br) e vive em Portugal

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