A crise hídrica e as ameaças à saúde pública
Sistema Cantareira: próximo do final do uso do Volume Morto (Foto Adriano Rosa)

A crise hídrica e as ameaças à saúde pública

Por Rodrigo Angerami

“A vida na fazenda se tornara difícil… No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido…”

“Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito”

Vidas Secas, 1938, Graciliano Ramos

 

Os cientificistas atribuem às mudanças climáticas. Os críticos incriminam os gestores e governantes. Os mais conscientes relacionam ao desperdício da população. Os místicos culpam os humores de deuses e santos. Independentemente das hipóteses, explicações, justificativas e argumentos, algo até pouco tempo impensável para a grande maioria está posto: a crise hídrica é uma realidade, a segurança hídrica de boa parte do país está comprometida.

Muito se questiona como será possível se adaptar, contornar, “sobreviver” sem a abundância de água com a qual a população do estado sempre foi brindada, “hidratada”. Menor duração do banho, menos perda na cozinha… menos desperdício, mais racionalidade, mais rigor na fiscalização e na taxação. Entretanto, muito pouco, ou quase nada, vem sendo discutido em relação a um aspecto muito mais relevante do que as consequências da restrição à lavagem dos automóveis: o impacto da tão alardeada (e inesperada?) crise hídrica sobre a saúde pública, sobre os mais diversos prismas.

Em uma perspectiva mais “míope” podemos imaginar os riscos à saúde das pessoas, “simplesmente” em decorrência do impacto de uma menor oferta de água sobre uma das principais medidas de prevenção e controle de doenças: o hábito da lavagem de mãos. Sabemos que essa prática figura como eficiente meio de prevenção de uma enorme gama de doenças: diarreias, conjuntivites, hepatites e gripe. Banhos não tomados podem se associar a uma infinidade de afecções e infecções dermatológicas. Isso sem mencionar a prevenção de infecções hospitalares em serviços de saúde. Some-se a isso as possíveis consequências das dificuldades para higienização e produção de alimentos, com consequente risco de transmissão de agentes infecciosos e intoxicações alimentares, de surtos.

Os problemas, entretanto, transcendem, em muito, o individual. Colocam a população, como um todo, de praticamente todo estado de São Paulo, sob risco. A menor vazão do rios e a menor capacidade dos reservatórios levam a uma maior concentração de poluentes na água a ser tratada para que então possa vir a ser distribuída em cada ávida torneira. Nesse contexto, falhas ou limitações nos processos de tratamento de água poderiam trazer efeitos de magnitude incalculável.

Alguns chamam de racionamento, outros de rodízio. Independentemente da denominação, a diminuição (seja fugaz, prolongada ou duradoura) da oferta de água já vem mobilizando inúmeras pessoas, famílias, bairros, setores diversos das cidades a buscar fontes alternativas do, cada vez mais, precioso líquido na esperança de verem suas necessidades básicas minimamente atendidas. Mais do que justo, totalmente compreensível. Muito, muito preocupante, entretanto. A eventual utilização de água imprópria para consumo humano, coletada a partir de minas ou adquirida a partir de caminhões-pipa que comercializam o produto sem regulação ou fiscalização, pode vir a expor as pessoas a inúmeros vírus, bactérias, protozoários e vários outros contaminantes, como metais pesados e outras substâncias químicas potencialmente nocivas à saúde. Gastroenterites, hepatite, intoxicações e, até mesmo, envenenamento são algumas das potenciais consequências.

Mais. A intermitência do provimento de água pode vir a culminar com surtos e epidemias, além das diarreias, de doenças (muito) bem conhecidas como a dengue e do “novato” Chikungunya. Mas como, se a chuva não veio, “teima” em não vir? Ledo engano daqueles que sempre acharam que o Aedes depende da água das chuvas. A estocagem antrópica, voluntária, programada, de água em reservatórios artificiais e impróprios para armazenamento (baldes, tambores, caixas de água e outros tantos sem proteção, sem tela, sem tampa) pode vir a criar verdadeiras “maternidades” do mosquito. Além disso, as elevadas temperaturas potencializam, em muito, as funções biológicas do vetor, sua capacidade reprodutiva e competência vetorial. Se os números de casos de dengue nas últimas epidemias não foram suficientes para demonstrar o quão insuficientes podem vir a ser as estratégias vigentes e utilizadas para o controle do Aedes, o “debutante” Chikungunya poderá demonstrar o quão imprescindível é a participação da sociedade, de cada família, de cada indivíduo no combate ao vetor. A população deve, de uma vez por todas, compreender que é um dos “acionistas majoritários” na luta contra a dengue e que sua participação não pode ser mais opcional, é um ato de cidadania.

Em uma nova era, de globalização de agentes infecciosos e vetores e dos extremos climáticos, mais do que nunca, o mundo deverá incorporar o conceito de que da saúde do ambiente dependerá, cada vez mais, a saúde da humanidade.

Rodrigo Angerami é Médico infectologista

 

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