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Dossiê Manoel de Barros: o encanto dos olhos molhados da poesia
Praça Pantaneira, em Campo Grande (MS): tributo a Manoel de Barros (Foto Adriano Rosa)

Dossiê Manoel de Barros: o encanto dos olhos molhados da poesia

O guardador de águas pantaneiras Manoel de Barros foi terra, foi fogo, foi um encantador de palavras que apenas aspirava o exercício de ser criança. Viveu muito e bem, entre os dois arcos do Mato Grosso, nascido em Cuiabá a 19 de dezembro de 1916 e falecido em Campo Grande a 13 de novembro de 2014. Falecido não. Ele que sonhava um concerto a céu aberto para solos de aves apenas foi encontrar o azul, sendo sempre um fazedor de amanheceres. Neste Dossiê Manoel de Barros, três vozes, três olhares, sobre o poeta que escrevia a gramática expositiva do chão, que sabia respeitar as ignorãças. A Mestre em Filosofia pela Unicamp Márcia Fontes e o poeta-músico Rafa Carvalho, ambos de Campinas, e a escritora e mestre em Literatura Ana Claudia Dantas, de São Paulo, ampliam as perspectivas sobre a vida e obra do menino do mato Manoel de Barros. Pois do barro viemos nós e as palavras.
MÁRCIA FONTES

Márcia Fontes: "sua poesia nos desorienta ao caos que antecede as leis" (Foto Arquivo Pessoal)

Márcia Fontes: “sua poesia nos desorienta ao caos que antecede as leis” (Foto Arquivo Pessoal)

Manoel de Barros e a poesia sem margens

 

“Pode um homem enriquecer a natureza com a sua

Incompletude?” (Manoel de Barros)

Claúdio Ulpiano, filósofo brasileiro e professor, chamou atenção para um aspecto constitutivo da arte: ela lida com a “aurora do mundo”, onde as coisas e os entes não assentam lugar ainda definidos. Esse caos primário daria substância à criação artística. Os poemas de Manoel de Barros expressam autenticamente este aspecto. Em um mundo desgastado em leis e lógica, onde as coisas são aprisionadas em funções e utilidades, sua poesia nos desorienta ao caos que antecede as leis, onde não há direções nem margens. A imaginação banha-se desse caos: das imagens, da linguagem, da sinestesia. O poeta pantaneiro que “queria crescer pra passarinho” partiu, tristemente, há poucos dias nos deixando como presente dos seus constantes “desfolhamentos” desenhos verbais que nos conduzem a outra percepção do mundo. Uma percepção primeira. Seus poemas possibilitam um retorno à infância de imagens.

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos -

O verbo tem que pegar delírio.

(In: O livro das ignorãças)

É necessário ir além da percepção comum do mundo, como nos alerta o poeta: “As coisas estão cansadas de ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave”. “Hoje eu desenho o cheiro das árvores”. “Uma rã me pedra”; “Um passarinho me árvore”; “Os jardins se borboletam”. Tais imagens linguísticas que soam aos lógicos como um patchwork de verbos e substantivos, representam a riqueza e dinamismo que as palavras possuem ao acessar a “aurora do mundo”. Com a mesma liberdade que tem a criança no manuseio da linguagem, o poeta faz com que a pedra deixe de ser o mineral estático e ganhe vida na poesia. Ele emaranha os sujeitos, os verbos, transpondo os sentidos sensórios e semânticos.  Manoel de Barros cria, assim, uma lógica própria, uma pré-lógica com a qual confirma a ideia de que a poesia “tem a função de pregar a prática da infância entre os homens”, como o poeta havia dito em sua Gramática expositiva do chão.

Essa ultrapassagem das margens da lógica transcende a linguagem comum fazendo o verbo “pegar delírio”. É pela poesia delirante que se acessa o mundo do contrassenso. O poeta utiliza a palavra “como se ela tivesse acabado de nascer”, posicionando-se, neste sentido, como um transgressor da linguagem, promovendo “o arejamento das palavras para que elas não morram a morte por fórmulas ou por lugares – comuns”. A referência que ele mesmo faz em Retrato do artista quando coisa, a uma Ilha Linguística como o espaço da poesia, é o universo próprio que ele cria para “entrar em estado de palavra” e “enxergar as coisas sem feitio”, as coisas do chão, as grandezas do ínfimo. “Temos que enlouquecer o verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la”.

E nisto se expressa um outro elemento de sua poesia: o traço harmonioso que conjuga a antropomorfização da natureza e a naturalização dos homens.  Há na poesia manoelesca uma quebra da relação dicotômica entre sujeito e objeto, isto é, não existe nele o olhar costumeiro sobre a natureza como objeto exterior sobre o qual o sujeito imprime a utilidade que lhe apraz. No caos da poesia de Manoel de Barros, os sujeitos tornam-se objeto, a incompletude humana complementa a natureza e se enriquece dela: “A rã me corrompeu para pedra. Retirou meus limites de ser humano e me ampliou para coisa. A rã se tornou o sujeito pessoal da frase e me largou no chão a criar musgos para tapete de insetos e de frades”. (In: Retrato do artista quando coisa). Como nos é fácil perceber, não cabe em Manoel de Barros uma mera reificação do homem, mas uma transfiguração que amplia o ser humano para equipará-lo aos outros seres passando a ser parte integrante da natureza e da poesia, qual os pássaros, as pedras, os lírios, o cisco, lagartos e rãs. Ele faz da poesia o lugar dessa transfiguração.

É a partir dessa poesia sem margens, do desarrumar da linguagem, da glorificação insistente das nadezas, das ignorãças, dos seres ínfimos, das insignificâncias, que o poeta tece o seu projeto poético e experimenta o gozo de transfazer o mundo.

Uma poesia se apropriou da infância do mundo: foi em Manoel de Barros.

Márcia Fontes é Mestre em Filosofia pela Unicamp

 

RAFA CARVALHO

Rafa Carvalho: "ele cabe mais num silêncio de nuvem" (Foto Arquivo Pessoal)

Rafa Carvalho: “ele cabe mais num silêncio de nuvem” (Foto Arquivo Pessoal)

manoel de barros é muito pouco provável de se dizer assim, com palavras. ele cabe mais num silêncio de nuvem, no geladinho úmido de uma terra escura e fofa, quando a gente enfia o dedo nela, ou no enfoque que a vista dá, quando um mira de perto, uma lesma, e revela ali a eternidade inteira de texturas, que, de um pouco nem tão perto, não se vê.

 

eu não tive a sorte de conhecê-lo pessoalmente, embora já tenha estado bem quase de ir até campo grande só pra apertar aquela campainha, algumas vezes. mas sempre o imaginei criança e dócil, ao mesmo tempo em que ancião e duro, arisco; quase bravo, às vezes. e sinto que ele ficaria mesmo bravo se ficássemos cá tristes, com isso de morrer, dele…

 

manoel sempre foi uma estrela. não no sentido “estrelato”. mas no sentido estelar. e eu ainda sinto que, se por um lado a poesia nele fosse a mais terrena e a mais humana, por outro, fundo, a palavra nossa e daqui nunca lhe serviu… quase como se palavra fosse arame, farpado, e, o que interessasse mesmo, fosse os vãos entre um arame e outro, e a possibilidade da esperteza e da faceirice, para ser em vão.

 

desse jeito, ele segue, a mim, poesia e vão. só sem os arames farpados. que nos ficam de herança. herança de toda brincadeira que é essa ultrapassagem. por isso é que ele ficaria é bravo com qualquer não-brincadeira aqui. bom, pelo menos, isso é  que eu invento. mas, manoel apareceu em duas histórias minhas até hoje, uma em 2011, outra em 2013. e, nas duas ocasiões, ele já brincava de estar morto! todo mundo vai morrer um dia… quem já tem quase cem, também… e assim como eu não soube sentir o peso disso nele em 2011, nem em 2013, não o soube nesse 13 de novembro.

 

manoel é poeta de fazer borboletas. sempre valerá lembrar. valerá sentir, também, que algo morre quando nasce um alicate cremoso, nesse mundo. e eu não duvido, que só tudo o que o aconteceu, foi ele escapulir para além de mais outra cerca.

 

contudo, não há exagero em dizer que manoel de barros é um mestre. e, nisso, noto: ser de barros aparece fundamental. afinal, se a gente é do barro, eu não sei; ou sei, mas não digo. mas, que manoel a partir de si criava o que fosse, isso taí. tanto, que, nesse seu caso, barro é plural… muito de-verso! e enfim… sem fim… ele vai deixando pra poesia do mundo, muito mais mundo pra poesia… e alguma espécie de vice-versa disso idem, também. vai deixando a deixa, esse monte de arame farpado e toda a dica de brincar. no mais, suas invenções e o resto todo; a vida: tudo a lesma-coisa…

Rafa Carvalho é poeta, músico, ativista cultural, multiartista de Campinas

 

ANA CLAUDIA DANTAS

Ana Claudia Dantas: "Era um encantador de palavras" (Foto Arquivo Pessoal)

Ana Claudia Dantas: “Era um encantador de palavras” (Foto Arquivo Pessoal)

ENCANTADORES DE PALAVRAS

Há escritores, e alguns, mais que escritores, são verdadeiros encantadores de palavras. Deles as palavras saem dançando e formam desenhos, abraçam chuva com sol, contam histórias das mais absurdas que não nos vão direto para o cérebro, passam, antes, pelo ponto mais obscuro da alma e lá acendem uma luzinha, que é como um beliscão, algo que nos mostra que estamos vivos e que não estamos sozinhos, que existem outros que vivem o que vivemos, pensam o que pensamos e tomam atitudes diferentes das nossas. Esses escritores atrevidos nos descrevem com palavras mágicas, contam para nós como somos e se vão, deixam a gente acrescido sem que a gente saiba como.

São encantadores que andam por aí disfarçados de meros mortais. Se você não os viu pessoalmente ou em alguma fotografia, eles passam na sua frente sem que você veja quanta magia há neles. Tornam-se apenas mais um no transito. É preciso ler seus escritos para alcançar sua dimensão. Mas com Manoel de Barros, nem disso eu precisei, olhei para ele pela tela da TV, e logo com as primeiras palavras que dirigia à entrevistadora entendi: esse é encantador.

Era uma tarde de preguiça que me foi proporcionada por uma gripe bem vinda dessas que nos proíbem de ir ao trabalho. O sol parecia gostoso lá fora, mas fazia um friozinho desses que pedia uma coberta, um sofá, uma televisão ligada. O programa era de reportagem e Manoel de Barros estava em pé, no quintal de sua casa, um quintal sem fim, sem porteira. O homem apontava para a imensidão de horizonte que ali havia, contando para a moça da televisão como era o barulho da grama, do rio, do vazio de acontecimentos, que o permitia ver e ouvir a realidade que fica escondida nas grandes cidades.

As palavras faladas lhes saiam dançando como se as estivesse escrevendo, eram poesias puras. Ali estava um homem que não sabia ser outra coisa senão poesia. Quando entraram na casa, o câmera focalizou a sala, um lugar simples, bastante iluminado pela luz solar que vinha da janela, tumultuado de papéis e livros, sem computador sobre a mesa. Estávamos em algum ano da década de 80 e esses aparelhos ainda não eram imprescindíveis, mas, para o poeta, eles nunca o foram, até o fim da vida compunha sua obra no papel. Manoel de Barros mostrou muito da sua poesia no programa comprido que assisti naquela tarde gostosa.

Em dado momento da entrevista o escritor explicou: “Devo isso tudo a meu filho, ele vem me mantendo para que eu possa escrever”. E essa sua fala me causou aflição, fiquei me perguntando como um homem tão brilhante, aos seus 64 anos de idade, precisa ser mantido pelo filho? Um homem cuja obra hoje figura entre as mais importantes da cultura brasileira.

Poucas pessoas sabiam quem era Manoel de Barros até os anos 1980, quando outro escritor o trouxe para a roda literária. Embora o poeta já escrevesse há mais de trinta anos, sempre com qualidade, não encontrava espaço no meio editorial e permaneceu desconhecido pelo grande público. Era um encantador de palavras sem acesso aos que porventura quisessem deleitar-se com seus encantos.

O Brasil tem sido acusado de não criar leitores ávidos, mas situações como essas vêm mostrar que as editoras brasileiras estão, como se diz popularmente, comendo barriga. Muitas estão bem instaladas e crescem constantemente por editarem best-sellers estrangeiros que, seguramente, dão bom retorno financeiro. Outras, as menores, tentam sobreviver às duras penas. Enquanto isso, excelentes escritores brasileiros ficam em banho-maria por uma vida inteira.

Mas, para Manoel de Barros, “a maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado” disse em um de seus poemas. “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”.

Manoel de Barros faleceu no dia 13 de novembro deste ano, voou para o céu como voa uma borboleta para o centro de uma flor, e se imortalizou por sua obra tão plural e intensa. Obrigado poeta.
Ana Claudia Dantas é poeta, mestre em literatura, desenhista e escritora.

O Pantanal das águas, dos jacarés, das garças e de Manoel de Barros (Foto José Pedro Martins)

O Pantanal das águas, dos jacarés, das garças e de Manoel de Barros (Foto José Pedro Martins)

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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