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Do you really want to Listen?

Do you really want to Listen?

Por Eduardo Gregori, de Lisboa

Em novo disco que acaba de ser lançado na Europa, a banda Culture Club parece insistir em uma fórmula que não funciona mais

Alguém no Brasil se lembra de Boy George? Talvez eu seja um dos poucos, pois fui um dos maiores fãs da banda inglesa que, nos anos 1980 foi comparada aos Beatles, tamanho sucesso que fizeram. Mas os anos 1980 foram cruéis para muitas bandas e prenunciou o oque acontece atualmente: tão rápido conquistam o mundo, mai rápido desaparecem.

Vinte anos após seu último álbum de estúdio, o grupo acaba de lançar na Europa Life, um disco que já chega causando polêmica e não pelas faixas, mas pela suposta demissão do baterista, Jon Moss, ninguém menos que o fundador do grupo. A imprensa britânica tem tratado o caso como uma vingança de George. Baterista e vocalista tiveram uma conturbada relação amorosa quando a banda estava no auge.

Bem, mas vamos falar de Life. A notícia boa para amantes de vinil, é que neste mundo cada vez mais digitalizado, o grupo brindou seus fãs também com uma versão bolachuda. Mas ao ouvir Life, tenho a mesma sensação que tive com Don’t Mind If I Do, disco que marcou a primeira  reunião da banda, desde os anos 1980,  em meados de 1999. Apesar de ser um trabalho primoroso, o álbum é aberto por I Just Wanna Be Loved, um reggae gostoso de dançar e que galgou certo sucesso nas paradas mundiais.

Em Life, a faixa escolhida para divulgar este novo disco é Let Somebody Love You, outro reggae, desta vez com uma pegada mais panfletária e utópica sobre o amor. Mas então fica a impressão, que Boy George e seu grupo estão como cachorros correndo atrás do próprio rabo. Isso porque Do You Really Want Hurt Me, reggae que abre o primeiro disco do grupo, Kissing To Be Clever, lançado em 1982, é uma das músicas que os colocou no Olimpo das paradas mundiais, mas isso há quase 40 anos. Então, se o Culture Club não é uma banda de reggae, parece estar querendo repetir uma fórmula que já não tem mais efeito.

Isso sem falar em Boy George, que há muitos anos não é mais um rostinho de menino que se maquia e brinca com a androgenia. Além disso, o cantor, que teve um problema nas cordas vocais, perdeu a beleza e oitavas na sua outrora voz suave e marcante. Se os efeitos de estúdio não estão dando conta de atenuar o problema, experimente ouvir ao vivo.

Eu diria a Boy George para melhorar a qualidade de seus vídeos (Foto Divulgação)

Eu diria a Boy George para melhorar a qualidade de seus vídeos (Foto Divulgação)

Outro fato que decepcionou os fãs é que o nome de Boy George foi incluído como oficial, agora é Boy George & Culture Club, em uma tentativa de colocar o vocalista em um patamar superior ao dos outros integrantes. Uma atitute egocêntrica e desnecessária nesse fim de uma carreira que estourou nos anos 1980, mas que patinou nas décadas seguintes.

Life tem algumas boas canções, mas nada como Karma Chamaleon, Miss Me Blind e Victms, canções que fizeram do Culture Club uma das bandas mais influentes e celebradas da América do Sul ao Oriente.

Se pudesse falar com Boy George, diria a ele para também melhorar a qualidade de seus vídeos. Já há algum tempo, o artista parece ter preguiça de contratar uma produção e investe em vídeos para suas músicas que mais parecem peças caseiras. Let Somebody Love You não foge a regra. Cores berrantes e roupas cafonas estão muito distantes dos quimonos de seda e ternos bem cortados de outrora.

Aliás, o Culture Club tem deixado um rastro de decepção ponde onde passa. No ano passado cancelou uma série de shows de sua turnê mundial. Fato que, inclusive aconteceu no Brasil. A banda tinha shows agendados em Brasília e São Paulo e desmarcou ambos no último momento. A produção não soube explicar o motivo dos cancelamentos, mas nas redes sociais o assunto foi a briga entre o vocalista e o baterista. E para irritar mais os brasileiros, o grupo passou direto pelo Brasil e foi se apresentar na Argentina o que, como sempre fomentou ainda mais o bullying entre ambos países.

Com uma carreira solo até bem definida e sempre presente nos holofotes da imprensa britânica, Boy George devia se poupar de tentar insistir em algo que deveria ter acabado bem lá nos anos 1980, mas com gostinho de quero mais e não fustigar um trabalho que está muito distante daquele pop elegante, recheado de backing vocals potentes e coroado com uma voz suave que não existe mais. Uma pena.

 

Sobre Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista formado pela Pontifícia Católica de Campinas. Nasceu em Belo Horizonte e por 30 anos viveu em Campinas, onde trabalhou na Rede Anhanguera de Comunicação. Atualmente é editor do blog de viagens Eu Por Aí (www.euporai.com.br) e vive em Portugal

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