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Educação em tempo integral é indutora de desenvolvimento no Nordeste
EM "José de Moura": a construção de uma comunidade de aprendizagem no interior do Ceará (Foto José Pedro S.Martins)

Educação em tempo integral é indutora de desenvolvimento no Nordeste

Experiências promissoras na região

Por José Pedro Soares Martins

No dia 18 de abril o Ecomuseu de Maranguape, que funciona no distrito de Cachoeira, em Maranguape (CE), deu início ao seu Programa de Educação Patrimonial. A atividade contou com uma palestra do presidente do Comitê Agrícola de Cachoeira, Antônio Gilson Rodrigues. O Comitê reúne os pequenos agricultores que residem e trabalham há décadas no distrito e trabalha em várias ações conjuntas com o Ecomuseu e com a Escola  Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (EMEIEF) José de Moura.

O resultado da conversa de Rodrigues com os alunos de Ensino Fundamental da escola José de Moura foi uma decisão coletiva: “Vamos todos aprender a fazer uma farinhada tradicional”. E assim, durante o mês de maio, como parte da programação do Festival do Feijão-Verde, os visitantes do Ecomuseu poderão degustar produtos da Casa de Farinha preparados durante a “Oficina de Beiju” pelas crianças e adolescentes da comunidade de Cachoeira. São os alunos da EMEIEF José de Moura, capacitados como monitores culturais do Ecomuseu de Maranguape.

Educação patrimonial e ambiental, geração de emprego e renda. A cooperação entre a EMEIEF José de Moura com o Comitê Agrícola de Cachoeira e o Ecomuseu de Maranguape é resultado de uma comunidade de aprendizagem em construção no distrito rural do município cearense, em um dos vários modelos de educação integral em curso no Nordeste.

“A ecomuseologia que está sendo retomada neste ano de 2019 no Ecomuseu de Maranguape alicerça-se na Ecocriatividade, como metodologia integrativa para a ampliação da aprendizagem, e objetiva poder colaborar junto com a comunidade local na construção de um território educativo, onde o patrimônio cultural também seja sinônimo de patrimônio ambiental, considerando, para tanto, a ética e os princípios da permacultura e as tecnologias sociais, contribuindo para o desenvolvimento sustentável local”, afirma Nádia Helena Oliveira Almeida, coordenadora do Ecomuseu de Maranguape. A comunidade de aprendizagem que vem sendo implantada em Cachoeira comprova que as experiências de educação integral – que apresentam um histórico de descontinuidade no Brasil – funcionam na prática como indutoras de desenvolvimento local e regional.

Nas paredes da EM "José de Moura", a valorização da educação (Foto José Pedro S.Martins)

Nas paredes da EM “José de Moura”, a valorização da educação (Foto José Pedro S.Martins)

História de descontinuidade – De fato, as políticas de educação em tempo integral apresentam uma história de idas e vindas, o que em si representa um desafio de peso. A bibliografia aponta que os primeiros argumentos em defesa de uma educação integral, pelo desenvolvimento integral do ser humano, aparecem no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932 (texto completo aqui).

Assinado por nomes como os educadores Fernando de Azevedo e Afrânio Peixoto de Sampaio Doria, o jornalista Julio de Mesquita Neto e a professora e poeta Cecília Meirelles, o Manifesto defende, logo na primeira frase, que “na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação”. Depois de fazer a crítica do modelo de educação então vigente, os signatários sustentam que a “educação nova” deveria ter “por objeto, organizar e desenvolver os meios de ação durável com o fim de ‘dirigir o desenvolvimento natural e integral do ser humano em cada uma das etapas de seu crescimento’, de acordo com uma certa concepção do mundo”.

O Manifesto também faz a defesa da “laicidade, gratuidade, obrigatoriedade e coeducação” e propõe que “a partir da escola infantil (4 a 6 anos) à Universidade, com escala pela educação primária (7 a 12) e pela secundária (12 a 18 anos), a “continuação ininterrupta de esforços criadores” deve levar à formação da personalidade integral do aluno e ao desenvolvimento de sua faculdade produtora e de seu poder criador, pela aplicação, na escola, para a aquisição ativa de conhecimentos, dos mesmos métodos (observação, pesquisa, e experiência), que segue o espírito maduro, nas investigações científicas”.

Outro signatário do Manifesto, o educador Anísio Teixeira procurou levar à prática a ideia da educação integral, através de uma escola em tempo integral,  com iniciativas como a Escola Parque, como ficou conhecido o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, implantado em Salvador (BA) em 1950, o que ratifica a contribuição histórica do Nordeste para a temática. Depois Anísio Teixeira levou o conceito para Brasília, a convite do presidente Juscelino Kubitschek.

Na década de 1980 a concepção de educação em tempo integral voltou no governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, com a implantação, idealizada pelo seu vice-governador, Darcy Ribeiro, dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Outros governos estaduais e municipais passaram a adotar as linhas dos Cieps.

O fortalecimento da ideia de educação em tempo integral veio com a edição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional  (LDB) de 1996.  A LDB, nos termos da Lei 9.394/96, preconiza em seu artigo 34 o “aumento progressivo da jornada escolar para o regime de tempo integral”.

Um avanço ocorreria com o lançamento em 2007 do Programa Mais Educação, como estratégia do governo federal para “induzir a ampliação da jornada escolar e a organização curricular, na perspectiva da educação integral”, como nota a publicação “Tendências para educação integral” (aqui), iniciativa da Fundação Itaú Social e Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

O Programa Mais Educação, assinala a mesma publicação, passou a promover “a ampliação de tempos, espaços, oportunidades educativas e o compartilhamento da tarefa de educar entre os profissionais da educação e de outras áreas, as famílias e diferentes atores sociais, sob a coordenação da escola e dos professores”. No ano de 2010 o Mais Educação estava presente em cerca de 10.000 escolas públicas, com Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) abaixo da média nacional e localizadas em capitais, regiões metropolitanas e cidades com mais de 90 mil habitantes. Em 2014 o Programa atendia a quase 50 mil escolas. Grande parte dessas escolas está localizada no Nordeste.

Em 2017 o Programa Mais Educação foi substituído pelo Novo Mais Educação, com mudanças nos critérios de seleção de escolas beneficiadas. Com a medida houve uma redução no número de escolas contempladas pelo Programa.

PNE e BNCC – Em 2014 o Brasil passou a ter um objetivo numérico de ampliação da jornada da educação em tempo integral, com a edição do Plano Nacional de Educação (PNE). A Meta 6 do PNE prevê que deveria ser oferecida a educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, até 2024, de forma a atender, pelo menos, 25% dos(as) alunos(as) da Educação Básica.

Em 2017, três anos depois da entrada em vigor do Plano Nacional de Educação, as matrículas em regime de tempo integral no Ensino Fundamental representavam 16,2% do total de matrículas. Considerando as escolas públicas e particulares, o percentual era de 13,9%. Os dados são do Censo Escolar 2017, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

O outro indicador da Meta 6, de 50% das escolas públicas oferecendo educação em tempo integral, provavelmente será alcançado, pois em 2017 ofereciam educação em tempo integral 40,1% das escolas públicas, representando 57.670 escolas.

A meta de ampliação do número de escolas e das matrículas em tempo integral, prevista no Plano Nacional de Educação, terá que ser atingida considerando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), editada no final de 2017. De acordo com vários especialistas, a BNCC agrega novos desafios para a construção da educação integral e da escola em tempo integral no país. O debate vai continuar, sobre como o país vai atingir as metas quantitativas indicadas no PNE e também processar, em termos qualitativos, as mudanças curriculares apontadas na BNCC.

Professor Adolfo Calderón, da PUC-Campinas: integralidade no Ensino Médio é desafio (Foto Arquivo Pessoal)

Professor Adolfo Calderón, da PUC-Campinas: integralidade no Ensino Médio é desafio (Foto Arquivo Pessoal)

ESPECIALISTA SUGERE COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM PARA PROPICIAR A EDUCAÇÃO INTEGRAL

Um dos principais obstáculos para a ampliação da oferta da educação em tempo integral no Brasil está na disponibilização de recursos humanos para possibilitar o oferecimento de atividades diversificadas e permanentes aos alunos que ficam até 7 horas na escola. Dificuldades orçamentárias, para a contratação de professores ou oficineiros, são constantemente apontadas pelos gestores.

Algumas experiências vêm sendo desenvolvidas em vários estados para promover a ampliação e consolidação do ensino em tempo integral em território brasileiro. De qualquer modo, a caminhada da educação em tempo integral, para assegurar uma educação e o desenvolvimento integral, parece irreversível, como entendem especialistas como o professor Adolfo Ignacio Calderón, da Pós-Graduação em Educação da PUC-Campinas.

Consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o professor Calderón tem participado de várias bancas de defesa de teses, de mestrado e doutorado, sobre educação integral. “Como as questões da diversidade de gênero e da inclusão, a educação integral é uma ideia planetária, não se trata de um modismo”, comenta o professor da PUC-Campinas.

Consciente dos entraves à expansão mais rápida da educação em tempo integral, como aqueles da contratação de pessoal, o professor Calderón entende que a comunidade de aprendizagem é uma trilha promissora. “É possível buscar novos espaços e tempos de aprendizagem, envolvendo não apenas a escola mas também a sociedade civil, para ações extra-muros”, afirma o especialista, citando o caso da comunidade de aprendizagem em construção no distrito rural de Cachoeira, no Ceará.

Outro desafio, admite o professor Calderón, está relacionado às dificuldades para os alunos de Ensino Médio, sobretudo, em manter-se em unidades de ensino em tempo integral. Por este motivo ele acredita que projetos específicos de transferência de renda, direcionados para os adolescentes, poderiam ser pensados para “garantir os seus estudos e uma formação técnica que lhes abra horizontes profissionais e para a satisfação de seus projetos de vida”.

ESTUDO MOSTRA POTENCIAL DAS ESCOLAS DE TEMPO INTEGRAL

A educação (em tempo) integral, aplicada em ampla escala geográfica, é recente no Brasil e portanto a avaliação sobre o seu impacto no desempenho dos alunos e das escolas é embrionária. Os sinais, embasados nos indicadores existentes, são os de que a escola em tempo integral permite maiores condições para o melhor desempenho dos alunos e das unidades escolares, com impacto no próprio desenvolvimento regional.

São vários casos para confirmar essa realidade, como o da Escola Estadual de Educação Profissionalizante (EEEP) Adriano Nobre, localizada no município cearense de Itapajé. Com um Ideb 7,0, a escola ficou em primeiro lugar no estado e em oitavo no Brasil no ranking nacional do Ideb do Ensino Médio de 2017.

O Ceará vem se destacando na ampliação das ofertas de educação integral. De acordo com o Censo Escolar 2017, o estado atingiu o índice de 30% de alunos matriculados em regime integral, ficando atrás apenas de Tocantins, onde o índice chegou a 32%. Os dois estados superaram, portanto, com muita antecedência, o objetivo de no mínimo 25% dos alunos matriculados em escolas de tempo integral até 2024 em todo país, como preconiza a Meta 6 do Plano Nacional de Educação.

Um dos principais estudos já realizados, considerando série histórica significativa, sobre o potencial das escolas de tempo integral para a melhoria do desempenho dos alunos e do processo de ensino e aprendizagem foi produzido pelo Instituto Natura no Nordeste. O estudo “Análise dos modelos de Escola em Tempo Integral em Pernambuco” comparou os indicadores de desempenho entre as escolas de Ensino Médio de Pernambuco que permaneceram com tempo parcial e aquelas que adotaram os modelos de jornadas de 45 ou 35 horas semanais a partir de 2008, quando foi implantado no estado o Programa de Educação em Tempo Integral. (Íntegra do estudo aqui)

Gráficos que mostram desempenho de escolas com maior jornada em Pernambuco

Gráficos que mostram desempenho de escolas com maior jornada em Pernambuco

De acordo com o estudo, as escolas com jornadas de 35 e 45 horas apresentaram relevante melhoria na proficiência entre 2009 e 2014, em comparação com as escolas que mantiveram a jornada parcial. Nesse período as escolas com 45 horas aumentaram suas notas no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 451 para 484. Do mesmo modo, as escolas com 35 horas avançaram nas notas do Enem, de 450 para 470. As escolas com tempo parcial tiveram um crescimento menor de desempenho, de 449 para 463.  As escolas com tempo integral também apresentaram melhor performance no caso do indicador estadual de proficiência, o Sistema de Avaliação da Educação Básica de Pernambuco (SAEPE), ministrado pela secretaria estadual da Educação, como pode ser verificado no quadro acima.

Outro dado importante do estudo promovido pelo Instituto Natura, que mantém o Programa Comunidade de Aprendizagem, refere-se à manutenção da alta proficiência, nas escolas de tempo integral, entre escolas com melhores ou piores condições de partida, considerando os indicadores: 1 – renda familiar dos alunos (% escolas com renda média acima de 2 salários mínimos), 2 – escolaridade dos pais (% alunos com ao menos 1 dos pais com Ensino Fundamental completo), 3 – estrutura das escolas (% escolas com laboratório de ciências) e 4 – porte das escolas (número médio de alunos por escola).

Gráfico no estudo do Instituto Natura, mostrando desempenho semelhante de escolas de jornada integral  com melhores e piores condições de partida

Gráfico no estudo do Instituto Natura, mostrando desempenho semelhante de escolas de jornada integral com melhores e piores condições de partida

O Grupo I seria o de escolas com melhores condições de partida (80% no indicador 1 – renda, 70% no indicador 2 – escolaridade dos pais, 40% no indicador 3 – laboratório de ciências e 1410 alunos em média no indicador 4 – porte das escolas). O Grupo II seria o de escolas com piores condições de partida (20% no indicador 1 – renda, 43% no indicador 2 – escolaridade dos pais, 20% no indicador 3 – laboratório de ciências e 1020 alunos em média no indicador 4 – porte das escolas). Segundo o estudo do Instituto Natura, entre 2009 e 2014 as escolas do Grupo I, de melhores condições de partida, tiveram desempenho semelhante ao das escolas do Grupo II, de piores condições de partida, como pode ser verificado no quadro acima.

Ainda conforme o estudo do Instituto Natura, a adoção dos modelos de educação em tempo integral teve impacto no avanço do Ideb da rede estadual de Pernambuco. Entre 2007 e 2015, a rede de Ensino Médio de Pernambuco saltou do 21º para o 1º lugar do ranking nacional, comparando-se os 27 estados e Distrito Federal, segundo os dados do Inep. Os dados existentes sinalizam, portanto, que a escola em tempo integral repercute de forma positiva no processo de ensino e aprendizagem. É o caso concreto das escolas que participara de experiência inovadora em educação integral no Nordeste.

A EM "José de Moura" e sua rua no distrito de Cachoeira: toda comunidade pela educação das crianças (Foto José Pedro S.Martins)

A EM “José de Moura” e sua rua no distrito de Cachoeira: toda comunidade pela educação das crianças (Foto José Pedro S.Martins)

PROGRAMA PELA EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL ENVOLVEU MAIS DE 200 ORGANIZAÇÕES

Defendida por especialistas como o professor Adolfo Ignacio Calderón, a comunidade de aprendizagem, unindo-se os esforços de escolas públicas, organizações sociais e outros recursos de um determinado território, para propiciar a educação em tempo integral para crianças e adolescentes, foi o foco de uma das mais abrangentes iniciativas nesse campo no país, entre 2005 e 2013. Nesse período, o Fundo Juntos pela Educação, constituído em 2004 pelo Instituto Arcor Brasil, Instituto C&A e Vitae, desenvolveu o Programa pela Educação em Tempo Integral (Programa pela Educação Integral no ciclo de 2011 a 2013), envolvendo a mais de 200 organizações.

O Programa dava apoio a projetos representados por redes locais constituídas por escolas públicas e outros ativos locais, em territórios de alta vulnerabilidade social. Os alunos dessas escolas tinham atividades em organizações comunitárias, em horário oposto ao escolar.

Entre 2005 e 2010 o Programa pela Educação em Tempo Integral deu apoio a projetos de redes locais no município paulista de Campinas e nos paraibanos de João Pessoa, Lucena e Santa Rita. Mais de 150 organizações estiveram envolvidas. Em Campinas, foram apoiados os projetos Além das Letras (região dos Amarais), NovasAtitudes.Com (Jardim Satélite Íris), Pacto Sustentável (Distrito de Sousas), Metamorfose (Campo Belo) e Comunidade Educativa (Vila Castelo Branco e Jardim Garcia). Com exceção do Distrito de Sousas, são territórios de baixo Índice de Desenvolvimento Humano, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras (aqui), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Fundação João Pinheiro e  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Na Paraíba, foram apoiados entre 2005 e 2010 os projetos Janelas Abertas (Alto do Mateus, em João Pessoa), Rede Crer Ser (região do Cristo e Rangel, em João Pessoa), Educação: (Con)Vivência Integral (Roger, João Pessoa), Educando na Diversidade (Mangabeira, João Pessoa), Unidade na Diversidade pela Educação (município de Santa Rita) e Roda Rede (município de Lucena). Todos os projetos envolvendo redes em territórios de menor IDH.

Escolas envolvidas nos projetos apoiados pelo Fundo Juntos pela Educação, como parte do Programa pela Educação em Tempo Integral, entre 2005 e 2010, demonstraram evolução no Ideb a partir do período de duração dos respectivos projetos.

Foi o caso das escolas que integravam o projeto Rede Crer Ser, na região do Cristo e Rangel, na capital paraibana. A Rede Crer Ser continua em atividade, mesmo com o fim do Programa pela Educação em Tempo Integral há nove anos.

Participavam do projeto Crer Ser, e continuam integrando a rede, as escolas municipais Agostinho Fonseca Neto, Américo Falcão, Durmeval Trigueiro, Santa Ângela, Professor Luiz Mendes Pontes, Padre Pedro Serrão e Leônidas Santiago e a Escola Estadual Gonçalves Dias.

Desde o período do projeto apoiado pelo Fundo Juntos pela Educação, as escolas se reúnem com regularidade, para planejar em comum as suas ações. “Procuramos por exemplo identificar situações de trabalho infantil, de crianças em situação de rua ou com dificuldades de leitura e procuramos soluções em um planejamento conjunto”, informa Teomary Alves, professora atualmente na EM Santa Ângela e que já lecionou na EM Durmeval Trigueiro. “A redução da evasão escolar é um dos objetivos e ela tem acontecido”, completa Teomary, sinalizando que o desenvolvimento local está diretamente associado ao trabalho de comunidade de aprendizagem colocado em prática pela Rede Crer Ser..

Os números do Ideb ratificam uma evolução acima das metas intermediárias estabelecidas para a maior parte das escolas nos anos iniciais do ensino fundamental. E houve redução acentuada da evasão escolar e outras ações com influência positiva no fator fluxo do indicador.

Dois exemplos servem para ilustrar o cenário favorável. Na EMEF Santa Ângela, as taxas de aprovação cresceram, entre 2007 e 2015, de 70,1% para 100% no primeiro ano,  de 68,2% para 86,4% no segundo, 75% para 86,2% no terceiro, de 59,5% para 90,9% no quarto e de 82,9% para 88,9% no quinto ano. A EMEF Santa Ângela teve um Ideb de 4,2 em 2017, em relação à meta de 3,7.

Na EMEIEF Professor Luiz Mendes Pontes, as taxas de aprovação aumentaram, entre 2007 e 2015, de 52,6% para 95,7% no primeiro ano, de 41,2% para 92% no segundo, de 57,8% para 78,4% no terceiro, de 60,9% para 74% no quarto e de 77,8% para 90,7% no quinto ano. O Ideb da escola em 2017 foi de 5,0 e a meta era de 4,5, de acordo com o QEdu, com dados do Ideb/Inep.

Escola Municipal "José de Moura", na zona rural de Maranguape, Ceará: Ideb alto em 2017 (Foto José Pedro S.Martins)

Escola Municipal “José de Moura”, na zona rural de Maranguape, Ceará: Ideb alto em 2017 (Foto José Pedro S.Martins)

A EXPERIÊNCIA DO DISTRITO DE CACHOEIRA

Entre 2011 e 2013, a iniciativa do Fundo Juntos pela Educação passou a ser denominada de Programa pela Educação Integral, com projetos de redes formadas nos estados de Pernambuco e Ceará. Da mesma maneira, escolas integrantes dessas redes (que mantiveram as parcerias locais após o encerramento do Programa) passaram a mostrar um bom desempenho no Ideb.

É a condição da Escola Municipal José de Moura, do distrito rural de Cachoeira, em Maranguape (CE), que integrou o Projeto Ecomuseu de Maranguape e apresentou um Ideb nos anos iniciais de 6,4 em 2017, acima da meta da escola, de 5,3.

Entre as ações implementadas durante o Projeto Ecomuseu de Maranguape, entre 2011 e 2013, configurando práticas de uma comunidade de aprendizagem do entorno da EM José de Moura, estavam uma biblioteca itinerante circulando em rodízio entre as casas do distrito rural e oficinas permanentes, de informática, música, meio ambiente e turismo rural, entre outras, na sede do Ecomuseu, que funciona em um casarão do século 19, mantido pela comunidade de pequenos agricultores.

Algumas ações em parceria permaneceram, como conta a diretora da EM José de Moura, Antônia Leda Costa de Assis. “Em parceria com o Centro Comunitário, temos a Escola Acústica da Natureza, com atividades para as crianças no casarão. São aulas de percussão, flauta e violão”, informa a diretora.

Casarão histórico onde funciona o Ecomuseu de Maranguape, no distrito rural de Cachoeira, Maranguape, CE (Foto José Pedro Martins)

Casarão histórico onde funciona o Ecomuseu de Maranguape, no distrito rural de Cachoeira, Maranguape, CE (Foto José Pedro Martins)

A Biblioteca Itinerante, idealizada para levar a leitura para dentro das casas dos pais dos alunos, foi transformada na Sacola Viajante. Todos os dias os alunos, em rodízio, levam a sacola com alguns livros para casa. Lá a leitura é compartilhada com a família e depois os alunos relatam a experiência.

Uma prática pedagógica iniciada no período do Projeto Ecomuseu de Maranguape permaneceu na EM José de Moura. São os módulos de aprendizagem, uma imersão nas disciplinas: 25 dias de Português e Matemática ou de Geografia, História e Ciências. A escola é a única em Maranguape que adota esse modelo, sendo uma das razões da evolução no Ideb e outros indicadores.

A utilização de tecnologias digitais, iniciada no Projeto Ecomuseu de Maranguape, também auxilia no processo, assinala a diretora Leda. Uma lousa digital, comprada no período do apoio do Fundo Juntos pela Educação, entre 2011 e 2013, continua sendo utilizada pela escola, que ainda adquiriu outros três equipamentos do mesmo tipo.

A experiência de comunidade de aprendizagem da EM José de Moura teve outro efeito. Maranguape incorporou o conceito de Cidade Educadora no seu Plano Municipal de Educação, em vigor desde 2015.

Aulas de música na varanda do casarão, durante o Projeto Ecomuseu de Maranguape (Foto José Pedro S.Martins)

Aulas de música na varanda do casarão, durante o Projeto Ecomuseu de Maranguape (Foto José Pedro S.Martins)

Além da EM José de Moura, foram parceiros do Projeto Ecomuseu de Maranguape, e continuam sendo da escola, a Fundação Terra, Centro Comunitário de Cachoeira, Conselho Escolar da EM José de Moura e Comitê Agrícola de Cachoeira. São justamente esses parceiros, atuando juntos há muito tempo, que explicam o sucesso da experiência de comunidade de aprendizagem e melhorias nos indicadores da EM José de Moura, afirma Graça Timbó, ex-diretora da escola de Cachoeira. Ela destaca que o desenvolvimento local é diretamente ligado ao processo de construção da comunidade de aprendizagem, unindo produtores rurais, escola, alunos e sociedade civil, representada pelo Ecomuseu de Maranguape.

Alto do Refúgio, Recife: organizações e escolas juntas pela educação integral (Foto José Pedro S.Martins)

Alto do Refúgio, Recife: organizações e escolas juntas pela educação integral (Foto José Pedro S.Martins)

O EXEMPLO DE PERNAMBUCO

O estudo do Instituto Natura mostrou o impacto positivo da educação integral em Pernambuco. Pois este é o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Ivan Neves – Alto do Refúgio, no bairro do mesmo nome, na periferia de Recife (PE). É uma das áreas de maior exclusão social na capital pernambucana. A escola integrou o projeto “Construindo saberes e direitos através da educação integral”, apoiado pelo Fundo Juntos pela Educação entre 2011 e 2013 como parte do Programa pela Educação Integral. O projeto teve como proponente o Clube de Mães dos Moradores do Alto do Refúgio e, como parceiras, a Associação Cultural e Social para a Juventude e Associação Comunitária Cabo Hermito de Sá.

Ideb da EM Alto do Refúgio, em Recife, que integrou comunidade de aprendizagem pela educação integral (Fonte QEdu)

Ideb da EM Alto do Refúgio, em Recife, que integrou comunidade de aprendizagem pela educação integral (Fonte QEdu)

As salas do Clube de Mães se transformaram em espaço para várias atividades com as crianças. A comunidade do Alto do Refúgio passou a contar com equipamentos de informática, bibliotecas fortalecidas e oficinas de artes, sobretudo dança e teatro. As parcerias com a EM Ivan Neves e demais escolas (Escola de Referência Ensino Médio EREM Álvaro Lins, EE Rotary de Nova Descoberta, EE Irmã Magna e EM Alto da Brasileira) foram igualmente mantidas após o término do projeto “Construindo saberes”.  O Ideb da EM Ivan Neves – Alto do Refúgio, nos anos iniciais, tem-se mantido acima da meta da escola, chegando a 6,2 em 2017, acima da meta de 4,5 para o ano e acima da meta para 2021, de 5,1.

O lema do Programa pela Educação em Tempo Integral e, depois, Programa pela Educação Integral, do Fundo Juntos pela Educação, era o ditado africano “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Os exemplos da Paraíba, do Ceará e de Pernambuco confirmam que o mantra foi seguido pelos projetos nos diferentes territórios, apontando para experiências de educação integral que demonstram grande potencial de indução ao desenvolvimento local.

 

 

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