Caos da água se aproxima em São Paulo e sociedade está paralisada
Cantareira parou de subir: expectativa para chuvas de março(Foto Adriano Rosa)

Caos da água se aproxima em São Paulo e sociedade está paralisada

Um caos no abastecimento de água na região mais rica do Brasil está cada vez mais próximo, mas até o momento são poucas as medidas concretas anunciadas pelos gestores públicos, enquanto a sociedade civil parece paralisada. Nesta segunda-feira, 19 de janeiro, os reservatórios do Sistema Cantareira, que abastecem quase a metade da Grande São Paulo, estão com 5,8% de sua capacidade e com queda permanente. No ritmo atual os reservatórios secam até o início de março. “A sociedade está acomodada e quando acordar pode ser tarde demais”, avisa o professor Dr.Antonio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp.

Os demais reservatórios que abastecem a Grande São Paulo também estão em queda. O Guarapiranga caiu de 39,3% para 38,9% nas últimas 24 horas. O Sistema Cotia declinou de 29,1% para 28,7%. O Alto Tietê teve queda de 10,5% para 10,4%. Queda também no Sistema Rio Claro, de 23,9% para 23,2%. E queda, finalmente, no Sistema Rio Grande, de 69,4% para 6,1%.

O governo de São Paulo anunciou três conjuntos de obras, mas todos serão finalizadas em no mínimo um ou dois anos, não repercutindo, então, na séria crise que se avizinha. O primeiro deles é a construção do Sistema São Lourenço, com recursos da ordem de R$ 2,6 bilhões, em grande parte do governo federal.

A obra vai beneficiar 1,5 milhão de pessoas em sete municípios da parte oeste da região metropolitana de São Paulo e a expectativa é a de que reduza a dependência dos outros sistemas, entre eles o Cantareira, que está em colapso devido à  falta de chuva. Entretanto, o Sistema São Lourenço, que já está em andamento, deverá ser concluído em meados de 2017. A água do novo sistema, que virá do Rio São Lourenço, será captada a 83 quilômetros da capital e armazenada na Represa do França.

Outro conjunto de obras é o das represas de Pedreira, no rio Jaguari, e de Duas Pontes, no rio Camanducaia. Quando estiverem concluídas, as duas represas contribuirão para o abastecimento público nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), diminuindo um pouco a pressão sobre o Cantareira. Entretanto, também demorarão para estar finalizadas, no prazo de dois ou três anos.

O outro projeto também é de longo prazo. Na última sexta-feira, dia 16,após reunião em Brasília, na Agência Nacional de Águas (ANA), foi anunciada a interligação entre o reservatório Jaguari, na bacia do Paraíba do Sul, e o reservatório Atibainha, na bacia do rio Piracicaba, maior reservatório do Cantareira.

Logo que terminou a reunião, o secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo, Benedito Braga, afirmou que as obras para a interligação do Sistema Cantareira com a Bacia do Rio Paraíba do Sul devem começar ainda este mês. O projeto foi pensado para contribuir com o Cantareira e o abastecimento da Grande São Paulo. Entretanto, como lembra o Dr.Paulo Affonso Leme Machado, um dos principais nomes no Direito Ambiental brasileiro, todas estas obras demandam estudos de impacto ambiental, incluindo audiências públicas para ouvir as comunidades envolvidas.

Enquanto as obras previstas não terão impacto a curto prazo no abastecimento, a sociedade civil parece paralisada. “O que acontece é que o governo de São Paulo é insensível aos apelos da sociedade, que pode fazer muito pouco”, afirma Carlos Bocuhy, presidente da Proam, representante das entidades ambientalistas de âmbito nacional no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). “Infelizmente as questões ambientais preventivas não conseguem mobilizar como deveriam”, afirma o ambientalista, que acentua a ocorrência em curso de uma “grande crise civilizatória”.

Outro nome conhecido na área ambiental, o professor Mohamed Habib, ex-diretor do Instituto de Biologia e ex-pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, entende que a falta de mobilização diante de situação tão grave decorre “da inversão de valores que tem ocorrido na sociedade mundial, fruto das ações do poder político associado ao de grandes grupos econômicos de escala internacional”.

Para o professor Mohamed, “em função dos interesses desses grupos, a agenda ambiental não é de fato uma prioridade global, apesar dos discursos em contrário”. Do mesmo modo, ele acredita que “medidas preventivas e de precaução não são do interesse desses grupos, voltados para o lucro imediato, e ações apenas acontecem quando o problema já está instalado e não dá mais para negar”.

O certo é que, com as chuvas irregulares como têm ocorrido no Verão 2014-2014, assim como já aconteceu no Verão 2013-2014, os reservatórios que abastecem a Grande São Paulo estão se evaporando rapidamente. O impacto será grande se não voltar a chover, com reflexo também na Região Metropolitana de Campinas, situada nas bacias PCJ. (Por José Pedro Martins) 

Professor Mohamed Habib: interesses econômicos e políticos impedem que agenda ambiental seja prioridade (Foto Martinho Caires)

Professor Mohamed Habib: interesses econômicos e políticos impedem que agenda ambiental seja prioridade (Foto Martinho Caires)

7 comentários

  1. É uma calamidade chegar a esse ponto o rio cantareira….Estou cm muito medo da falta de agua total em s.Paulo..

    • roberto renon

      não tem problema de faltar agua em sampa,o rio tiete e sua bosta filtrada esta ai pra socorrer a tucanada que idolatra serra,alckmin aécio e toda a quadrilha psdbosta.

  2. Tereza Penteado

    As barragens não tem função definida.
    A população de Prdreira e Amparo afirmam que a agua irá para a Replan em Paulinia.
    Vejam toda discussão http://blog.individuoacao.org.br/2014/12/seminario-para-explanacao-e-debate-do.html

  3. Incrível que toda aquela gente que saiu nas ruas para protestar contra o aumento da tarifa não proteste contra afalta de água

  4. Ricardo Cruzeiro

    Pelo menos, QUANDO acabar a água e SÓ mesmo dias e dias depois de acabar a água, TODOS (exceto os que compraram 4 caixas d’água) irão pras ruas, finalmente por um motivo justo, bem diferente dessas marchinhas reacionárias de hoje em dia e, quem sabe, aprenderemos como é que se põe em curso uma reivindicação de verdade.

  5. É uma cegueira inacrditável, parece que ninguém quer falar a respeito.

  6. Pessoal, não concordo que seja certo dizer que a sociedade civil não está fazendo nada. Muitos movimentos sociais tem se organizados e amanhã e depois vai acontecer dois dias de audiências públicas promovidas pelo Ministério Público para que sejam tomadas medidas legais contra a Sabesp. Participem http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/noticias/noticia?id_noticia=13845643&id_grupo=118

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