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Parques e defesa das baleias, marcos na ação ambientalista
Proteção dos oceanos foi uma das preocupações da Conferência de Estocolmo (Foto Adriano Rosa)

Parques e defesa das baleias, marcos na ação ambientalista

Páginas da história ambiental – I

Por José Pedro Martins

Uma das afirmações recorrentes, quando aparece uma crise ambiental como a atual, da água, em São Paulo, é a de que a consciência ecológica é muito recente e, por isso, seria “natural” estarmos em tal situação calamitosa. Na realidade, esse pensamento ajuda a mascarar responsabilidades, na medida em que a consciência ambientalista já tem décadas e, por que não dizer, séculos.

Foi no mesmo cenário do início da Revolução Industrial, no século 18, que as primeiras vozes de alerta emergiram. O avanço da ciência se, por um lado, ajudou a dar ferramentas para o domínio da natureza, por outro, também tem implicado em muitas advertências por parte de pesquisadores.

Lamentavelmente, essas vozes não tem sido ouvidas, e daí a crise cada vez mais profunda dos recursos naturais em todo planeta. De qualquer modo, é importante lembrar que iniciativas pela proteção desses recursos e da biodiversidade são antigas.

As primeiras organizações ambientalistas – A expansão das ferrovias e dos perímetros urbanos, a proliferação de áreas marcadas pela poluição  vinda das indústrias movidas a carvão e, depois, derivados do petróleo, o desaparecimento de espécies animais que encantavam os homens. Tudo isso, somado ao florescimento e disseminação do nacionalismo, contribuiu para a emergência das primeiras organizações dedicadas à conservação da natureza, na segunda metade do século 19. Instituições dedicadas a proteger uma espécie ou determinada paisagem, que sempre tinha significado importante para uma identidade nacional específica, como acentua Philippe Le Prestre (in “Ecopolítica Internacional”, Editora SENAC, São Paulo, 2000, página 163).

Assim apareceram a Sociedade Nacional de Proteção da Natureza na França (1854), Associação para a Proteção dos Pássaros Britânicos (sic!, 1870), os norteamericanos Sierra Club (de 1892 e ainda muito influente) e Audubon Club (1905), a grega Les Amis des Arbres (1902), os dinamarqueses Dansk Ornitologisk Forening  (1906) e Danmarks Naturfednings Forening (1911), a Ligue Suisse pour la Protection de la Nature (1909) e a Royal Society for Nature Conservation (1912), entre tantas outras organizações listadas por Le Prestre.

Iniciativas concretas para a proteção de determinado espaço natural foram as criações de parques nacionais, como o pioneiro de Yellowstone, nos Estados Unidos, em 1872, e a partir dele o Royal National Park na Austrália (1879), os canadenses Banff (1885) e Glacier (1886), os parques suecos na Lapônia (1909) e os primeiros parques na Suíça (1914) e Espanha (1918).

Primeiros tratados e convenções –  Na esteira dessas preocupações de certo modo pioneiras, com a proteção de recursos naturais, para que eles não fossem exauridos, devastados, apareceram nas primeiras décadas do século 20 as convenções, igualmente pioneiras, na área ambiental, todas apontando para aspectos do que, no início do século 21, é considerado como essencial à sustentabilidade. Como a Convenção europeia para a proteção dos pássaros úteis à agricultura (1902), a Convenção sobre a foca peluda do Pacífico Norte entre Canadá e Estados Unidos (1911), Convenção para a proteção dos cardumes de bacalhau do Pacífico Norte e do mar de Bering (1923) e Convenção para a conservação da fauna e da flora em estado natural (Londres, 1933).

A destacar, a Convenção para a regulamentação da caça à baleia, de 1931, que está na origem da Convenção de Washington para a regulamentação da caça à baleia, conhecida como “Convenção Baleeira Internacional”. A preocupação com a caça às baleias, maiores mamíferos do planeta, e que alcançou grande protagonismo com as campanhas da Greenpeace nas décadas de 1970 e 1980, data de longe, na esteira da destruição desses animais magníficos, que sempre provocaram temor e encantamento e que geraram – e continuam gerando – lucros para pessoas e empresas inescrupulosas.

A Convenção Baleeira Internacional representa um marco, pelo que ela representou de proteção das baleias, sobretudo das baleias azuis, embora tenha recebido muitas críticas posteriormente, pelos rumos que tomou. Outras espécies, infelizmente, continuaram e continuam sendo caçadas impiedosamente no início do século 21. A Tabela 1 mostra a queda da caça à baleia azul – porque o seu número se reduziu drasticamente, em um caso clássico de como é insustentável o modelo de desenvolvimento que não se preocupa com a preservação de espécies e recursos naturais.

Tabela 1

Baleias azuis caçadas por década no planeta

1910 – 1919 26.819
1920 – 1929 69.217
1930 – 1939 170.427
1940 – 1949 46.199
1950 – 1959 35.948
1960 – 1969 7.434
1970 – 1979 23
1980 – 1991 0

Fonte: Pearce, Turener y Bateman. 1996, in “EMPRESARIO Y MEDIO AMBIENTE: ¿MENTALIDAD EN CONTRAVIA?,  PRINCIPIOS DE ECONOMIA SOSTENIBLE”, Alejandro Boada Ortíz, Facultad de Administración de Empresas, Universidad Externado de Colombia

 

Ao lado das primeiras instituições e convenções dedicadas à proteção e conservação de recursos naturais, foram realizados os primeiros grandes encontros internacionais sobre o tema. Casos do Congresso Internacional sobre a proteção da natureza, em Paris (1909), Congresso Internacional sobre a proteção da flora, da fauna e dos panoramas e monumentos naturais, também em Paris (1923), e do Congresso internacional para o estudo e a proteção dos pássaros, de 1927, em Genebra, Suíça.

Enfim, iniciativas em defesa de ecossistemas e de espécies não são nada recentes. Pelo contrário, são históricas. Tomara que continuem servindo de exemplo para as atuais e novas gerações, em um contexto global cada vez mais crítico e complexo. (Por José Pedro Martins)

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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