Ebola preocupa, mas casos de Febre Chikungunya aumentam quatro vezes em duas semanas no Brasil
Campinas com vários nomes no alto escalão do governo federal (Foto Adriano Rosa)

Ebola preocupa, mas casos de Febre Chikungunya aumentam quatro vezes em duas semanas no Brasil

A mídia brasileira e internacional tem destinado importantes e justos espaços para noticiar a escalada do Ebola no mundo, mas o país já convive com um grande risco de saúde pública em função da Febre Chikungunya, cujo número de casos registrados aumentou quatro vezes em apenas duas semanas. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de casos confirmados cresceu de 79 até o dia 27 de setembro para 337 em 11 de outubro, 87 dos quais confirmados por critério laboratorial e 250 por critério clínico-epidemiológico.

Do conjunto de casos registrados, 38 são casos importados de pessoas que viajaram para países com transmissão da Febre, como República Dominicana, Haiti, Venezuela, Ilhas do Caribe e Guiana Francesa. As condições sanitárias, econômicas e demográficas no Brasil, que atravessa uma forte estiagem em várias regiões, podem favorecer um crescimento ainda maior no número de casos da doença, de forma associada à dengue.

Os outros 299 casos já confirmados no Brasil foram diagnosticados em pessoas sem registro de viagem internacional para países onde a transmissão acontece. São então casos autóctones, sendo 17 registrados no município de Oiapoque (AP), 274 no município de Feira de Santana (BA), sete em Riachão do Jacuípe (BA) e 1 em Matozinhos (MG).

As Américas vivem uma inquietante ascenção da Febre Chikungunya desde dezembro de 2013, quando foi confirmada a transmissão autóctone do vírus no continente.  Até o dia 10 de outubro, já tinham sido registrados 748.403 casos suspeitos nas Américas, e confirmados 11.549, com 141 mortes.

A evolução da doença é ainda mais preocupante, considerando o panorama mundial. Desde 2004 o vírus havia sido identificado em 19 países. o dia 29 de agosto de 2014, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou um alerta epidemiológico, diante da iminência do crescimento do número de casos, sobretudo na América Central, Caribe e América do Sul.

Na ocasião, a OPAS/OMS alertou para a situação epidemiológica provocada pela “temporada de maior transmissão de dengue e a introdução do vírus Chikungunya na região”, o que requer “integrar esforços para a prevenção e o controle de ambas enfermidades”. A rápida disseminação do vírus Chikungunya documentada em alguns países das Américas  “p0de somar-se à ocorrência simultânea de casos ou surtos de dengue”.

No comunicado do alerta epidemiológico, a OPAS/OMS fez recomendações às autoridades sanitárias de todo continente, considerando três cenários, relacionando dengue e Febre Chikungunya. Isto porque a Febre Chikungunya é uma doença provocada por vírus do gênero Alphavirus, transmitida por mosquitos do gênero Aedes, dos quais o Aedes Aegypti (transmissor da dengue, recorrente em várias regiões do Brasil) e o Aedes Albopictus são os principais vetores.

As recomendações da OPAS/OMS consideravam os cenários: I – Sem evidência de transmissão de Chikungunya e com transmissão de dengue; II – Com evidência de transmissão de Chikungunya e com atual transmissão de dengue; III – Com surtos concomitantes de Chikungunya e dengue.

Os sintomas da Febre Chikungunya são febre alta, dor muscular e nas articulações, cefaleia e exantema, geralmente durando de três a 10 dias. A OPAS/OMS afirma que a letalidade da Chikungunya é rara, sendo menos frequente que nos casos de dengue.

Um sinal de que o Ministério da Saúde está atento e preocupado com a evolução da doença no Brasil é que ele passou a adotar, a partir da segunda semana de outubro, o critério clínico-epidemiológico paraa  confirmação da febre Chikungunya nos locais que registram casos autóctones (originários no país). A recomendação da OPAS/OMS é a de que, a partir da confirmação dos primeiros casos notificados por laboratório é que os casos sejam confirmados por critérios epidemiológicos. Com a adoção do critério clínico-epidemiológico, a confirmação de um caso (de modo mais rápido e eficaz) considera fatores tais como: sintomas apresentados e a proximidade dele com pessoas que já contraíram a doença. O Ministério da Saúde observa que, onde não há os primeiros casos originários de Chikungunya, a comprovação continuará sendo por meio do exame de laboratório.

Até o final de outubro, o Ministério da Saúde está promovendo o Levantamento Rápido do Índice de Infestação de Aedes aegypti (LIRAa ). O propósito da medida é identificar as larvas dos mosquitos Aedes Aegypti e Aedes Albopictus, onde estão os focos e os depósitos de água onde foi identificado o maior número de focos de mosquito.

Nesse aspecto a atual crise hídrica em várias regiões do país alimenta a preocupação com as perspectivas relacionadas à Febre Chikungunya e à dengue. Como está faltando água em muitas cidades, a população está procurando alternativas. A dúvida é se a água adquirida tem potabilidade adequada e se a água está sendo armazenada de forma apropriada. Do contrário, pode estar ocorrendo a proliferação de focos dos vetores.

De fato, o Ministério da Saúde considera essencial a eliminação dos criadouros de mosquitos, como forma de evitar a transmissão do vírus Chikungunya e também da dengue. Então, ações como evitar o acúmulo de vasilhames e verificar se a caixa d´água está corretamente fechada tornam-se fundamentais como medidas de prevenção.

Mobilidade inédita – Antes de 2013, o vírus Chikungunya circulava somente na África e Ásia. O infectologista Dr.Rodrigo Angerami, médico da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, observa que pelo menos três fatores típicos da sociedade contemporânea contribuem para o aparecimento de novos desafios para a saúde pública. Um deles é a mobilidade inédita, de pessoas, de capital, de mercadorias. O outro, as mudanças climáticas. E o terceiro, o incremento dos fluxos migratórios, por várias causas.

Estes fatores, que podem atuar de forma associada, representam novos dramas para a saúde pública, na medida em que questionam os indicadores tradicionais utilizados para verificar o bem estar e as condições sanitárias das populações. “É preciso estar muito atento à mobilidade. O turismo aumentou muito, para lugares até então desconhecidos ou pouco procurados. E também temos a mobilidade das pessoas a trabalho, para educação, e também existem os fluxos de mercadorias, em um mundo cada vez mais globalizado”, observa o infectologista.

Os fluxos migratórios também cresceram, ele lembra. As Nações Unidas estimam em mais de 40 milhões o número de refugiados do planeta. Refugiados políticos, sociais e também ecológicos. E muitas vezes estes refugiados são obrigados a sair de regiões com condições sanitárias inadequadas. As Nações Unidas também acreditam que as mudanças climáticas podem influenciar na eclosão de novas ou de conhecidas epidemias.

Um novo mundo pede uma nova arquitetura da saúde pública, acredita o Dr.Angerami. O caso da Febre Chikungunya é preocupante, assinala o especialista, entre outros motivos porque a população não está imunizada e porque a doença tem como vetor um mosquito, o Aedes Aegypti, que também transmite a dengue. Áreas muito conurbadas, com fronteiras praticamente inexistentes, merecem especial atenção neste cenário global de intensa e rápida mobilidade, completa o infectologista da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas.

 

 

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