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Com seca e eventual apagão, Brasil está à beira de convulsão social
Reservatório de Atibainha, com o que resta de água no Sistema Cantareira: sem chuva haverá muito drama. (Fotos Adriano Rosa)

Com seca e eventual apagão, Brasil está à beira de convulsão social

Acirramento de conflitos pela água, proliferação de epidemias, apagão no sistema elétrico, demissões no setor produtivo. Parece cenário de ficção científica, ao estilo de “Mad Max”, mas conjunção desses quatro fatores pode acender o barril de pólvora da convulsão social no Brasil nos próximos meses, se não chover a quantidade necessária para a recomposição dos reservatórios de abastecimento e de fornecimento de energia e para a melhoria das condições ambientais em geral. Não por acaso, a atual estiagem prolongada, histórica em algumas regiões, lembra a de 1951-1953, quando foram registrados vários saques e migração em massa de nordestinos para a Região Sudeste.

A situação dos reservatórios, que fornecem água e energia para milhões de brasileiros, é particularmente preocupante. Na terça-feira, o conjunto de reservatórios do Sistema Interligado Nacional, administrado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), estava com 20,93% do volume útil. Em outubro de 2001, ano do grande apagão, que levou a medidas de racionamento de energia em todo país, os reservatórios estavam com 21,39% da capacidade. Naturalmente o panorama hoje é outro, pois foram acrescentadas muitas termelétricas à matriz energética.

Em algumas bacias hidrográficas o panorama é ainda mais inquietante. Na bacia do rio São Francisco, todos os reservatórios estão com menos de 25% do volume útil, com o caso extremo de Três Marias, com 3,59% do volume útil total. Na bacia do rio Grande, todos os reservatórios estão abaixo de 35% de volume útil, com os casos mais graves em Camargos (2,04%), Caconde (4,17%), Marimbondo (12,58%) e Furnas (16,29% do volume útil total). Na bacia do Paraíba do Sul, cinco dos oito reservatórios estão com menos de 17% de volume útil.

Para o professor Antônio Carlos Zuffo, o Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil Unicamp, a possibilidade de apagões é forte, se não chover o suficiente para a recomposição dos reservatórios nas próximas semanas.

O fornecimento de água é igualmente preocupante, com destaque para a Região Metropolitana de São Paulo, a mais populosa e industrializada do país. Os reservatórios do Sistema Cantareira, que abastecem metade da RMSP, chegaram a 3,2% do volume útil. Milhares de pessoas já buscam alternativas de água para estocar em casa.

Saúde pública – Esta situação é motivo de preocupação para o setor de saúde pública. O armazenamento de água em condições inadequadas pode favorecer a proliferação de vetores de doenças, como o Aedes Aegypti, transmissor da dengue, recorrente em várias regiões do Brasil, e também da Febre Chikungunya, que tem rápida disseminação em vários países das Américas e já presente em território brasileiro, com 789 casos confirmados até esta quarta-feira, 22 de outubro.

São 458 casos na Bahia, 220 no Amapá e um em Minas Gerais. No dia 27 de setembro o Brasil tinha 79 casos confirmados. As Américas vivem uma inquietante ascenção da Febre Chikungunya desde dezembro de 2013, quando foi confirmada a transmissão autóctone do vírus no continente.  Até o dia 17 de outubro, já tinham sido registrados 759.742 casos suspeitos nas Américas, e confirmados 12.327, com 141 mortes.

A evolução da doença é ainda mais preocupante, considerando o panorama mundial. Desde 2004 o vírus havia sido identificado em 19 países. o dia 29 de agosto de 2014, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou um alerta epidemiológico, diante da iminência do crescimento do número de casos, sobretudo na América Central, Caribe e América do Sul.

Na ocasião, a OPAS/OMS alertou para a situação epidemiológica provocada pela “temporada de maior transmissão de dengue e a introdução do vírus Chikungunya na região”, o que requer “integrar esforços para a prevenção e o controle de ambas enfermidades”. A rápida disseminação do vírus Chikungunya documentada em alguns países das Américas  “p0de somar-se à ocorrência simultânea de casos ou surtos de dengue”.

Os sintomas da Febre Chikungunya são febre alta, dor muscular e nas articulações, cefaleia e exantema, geralmente durando de três a 10 dias. A OPAS/OMS afirma que a letalidade da Chikungunya é rara, sendo menos frequente que nos casos de dengue.

Até o final de outubro, o Ministério da Saúde está promovendo o Levantamento Rápido do Índice de Infestação de Aedes aegypti (LIRAa ). O propósito da medida é identificar as larvas dos mosquitos Aedes Aegypti e Aedes Albopictus, onde estão os focos e os depósitos de água onde foi identificado o maior número de focos de mosquito.

Economia e saques – Os efeitos da crise hídrica na economia não são menos preocupantes. Muitas empresas já criaram comitês anti-crise para preparar medidas preventivas em relação aos cenários possíveis. Apenas na bacia do Alto Tietê, onde está a RMSP, a indústria consome mais de 70 metros cúbicos (70 mil litros) de água por segundo, dos mais de 220 m3/s consumidos na bacia, sendo mais de 110 m3/s para abastecimento público e 44 m3/s na irrigação. O incremento do reuso de água é uma das alternativas em estudo para o setor industrial.

A comparação da situação atual com a da primeira metade da década de 1950, quando houve, sobretudo em 1953, uma seca similar, é inevitável. Muitos saques aconteceram no Nordeste na época. Essa seca foi determinante para impulsionar grandes fluxos migratórios do Nordeste para o Sudeste.

O próprio Plano Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista, publicado pela Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo em 2013, alertava: “É fundamental também estabelecer as condições para o enfrentamento de eventuais períodos de seca ou falhas no sistema, por meio da adoção de um plano de contingências e emergências, com medidas bem estruturadas, assim como fazem os Estados Unidos e vários países da Europa. A eventualidade de uma seca na região Sudeste, como a que ocorreu na primeira metade da década de 50 do século passado, teria impactos econômicos e sociais enormes sobre o Estado, com efeitos que se disseminariam por todo o País”.

O estudo completava, como que em uma profecia em relação ao que está acontecendo no momento: “A redução na disponibilidade de água, superior a 40%, teria efeitos catastróficos sobre a população, hoje muito mais dependente do sistema público do que na década de 50, quando um número bem maior de residências dispunha da alternativa de abastecer-se diretamente do lençol freático superficial”.
A literatura tem várias citações sobre as secas históricas, como a de 1953 no Nordeste. Em “Vida e morte no sertão – História das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX” (São Paulo, Ática, 2000), diz Marco Antônio Villa: “Diferentemente das outras secas, a de 1951-1953 acabou impulsionando o fluxo migratório do Nordeste em direção ao Sul, principalmente para São Paulo, Rio de Janeiro e o oeste do Paraná (…). A melhoria dos meios de transporte, especialmente do transporte rodoviário, facilitou a viagem em busca de uma vida melhor, longe do latifúndio, da prepotência dos coronéis e do flagelo da seca. (…) Utilizando-se de vapores, que percorriam o rio São Francisco até Pirapora, de trens e de caminhões, centenas de milhares de nordestinos deslocaram-se para o Sul, sem nenhum apoio oficial, na maior migração da História do Brasil. (…) A avalanche foi espontânea e surpreendeu os governos. A estrada Rio-Bahia transformou-se no maior conduto dessa migração. A cada dia, dezenas e dezenas de caminhões, transportando de setenta a noventa pessoas em média, seguiam para o Rio de Janeiro e para São Paulo – cobravam-se, em média, 500 cruzeiros pela passagem (…). As péssimas condições da estrada, a superlotação dos caminhões, a falta de infra-estrutura à beira da Rio-Bahia acabaram dando tinturas épicas a esse movimento migratório. (…) a viagem durava entre oito e catorze dias (…)” (p. 170-171)

O Plano para a Macrometrópole prevê várias alternativas para complementar o abastecimento na RMSP e também nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), Paraíba do Sul e Baixada Santista, mas são todas soluções de médio e longo prazo. Sem chuva em quantidade adequada nos próximos dias, o panorama geral é mais do que dramático. (Por José Pedro Martins)

 

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