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A contribuição da agricultura para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Exemplo de integração de lavoura e pecuária, com soja e gado nelore no Mato Grosso (Foto Gabriel Faria / Embrapa Agrossilvipastoril)

A contribuição da agricultura para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Por José Pedro Soares Martins

Campinas, 29 de junho de 2018

Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, geração de energia através da biomassa, reaproveitamento e reciclagem em grande escala, avanço da prática de irrigação, uso crescente de alta tecnologia para manejo eficiente dos recursos naturais. São várias as estratégias e ações que vêm sendo utilizadas pela agricultura e pelo agronegócio no Brasil, contribuindo com a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos na Agenda 2030.

Em setembro de 2000 a Cúpula do Milênio, realizada na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, deliberou pela execução, entre 2000 e 2015, dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Era uma tentativa de esforço pela mobilização de governos, setor privado e sociedade civil em torno de oito grandes objetivos, que serviriam como norteadores de políticas públicas, ações de cooperação internacional e atividades em geral.

Os ODM deixaram um saldo favorável em várias áreas, mas permaneceram enormes desafios. Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida como Rio+20 e realizada no Rio de Janeiro, em junho de 2012, o conjunto de países decidiu pela aplicação dos ODS entre 2016 e 2030, na tentativa de dilatar as conquistas acenadas pelos ODM.

André Sarria, pesquisador no Rothamsted Research (Foto Divulgação)

André Sarria, pesquisador no Rothamsted Research (Foto Divulgação)

“O nascimento da agricultura foi, em todos os sentidos, o nascimento da civilização como a conhecemos. Com ele também foi o início da manipulação humana sobre a natureza. Produtividade e sustentabilidade de alimentos depende das reservas naturais do planeta: solo, água, clima e biodiversidade. Sobrevivemos e prosperamos graças à manipulação dos mais fundamentais recursos de produção através da agricultura, pecuária e pesca”, lembra André Franceschini Sarria, formado em Química pela Universidade Federal de São Carlos, pela qual também se tornou doutor, em 2012.

André é hoje pesquisador do Rothamsted Research (pelo qual é pós-doutor), na Inglaterra, e foi um dos convidados em 2017 pelo Parlamento Britânico para falar justamente sobre a agricultura brasileira. “Doze mil anos atrás no período neolítico a população mundial basicamente era formada por caçadores coletores e não havia uma sociedade definida, não éramos mais do que 10 milhões de sapiens caminhando pelo planeta. Em 2015 passamos a ser 7 bilhões e esse número se torna mais preocupante ao saber que, há 200 anos, a população mundial era de um pouco menos que 1 bilhão”, lembra André Sarria. “Com a revolução industrial tivemos um avanço sem precedentes em ciência, tecnologia e longevidade. Vive-se mais e vive-se melhor, mas num sentido ecológico as consequências da atividade humana para o planeta estão se tornando preocupantes. Este seria o grande desafio para as próximas gerações: produzir alimentos ante a este crescimento populacional”, nota o pesquisador do Rothamsted Research.

“Sustentabilidade é uma equação que depende da economia, da ecologia e da ação social. Produzir alimento em quantidade e qualidade, capaz de abastecer o mercado interno e exportar para 160 países mostra nosso sucesso. Essa fantástica produção gera empregos e renda Brasil afora e, no interior, se o campo vai bem, o comércio se aquece e toda a sociedade se anima. Na agenda azul, dos recursos hídricos, as novas tecnologias de irrigação, com gotejamento e microaspersão, trazem enorme economia de água nas operações de campo. Os dados mais recentes mostram que 61% do território nacional ainda estão cobertos com vegetação nativa. O dado fala por si só com respeito à proteção da biodiversidade”, afirma o agrônomo Xico Graziano, ex-secretário estadual das pastas de Agricultura e de Meio Ambiente de São Paulo e ex-presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), sintetizando alguns dos aportes da agricultura e do agronegócio brasileiro para a Agenda 2030.

Abaixo, um balanço de como a agricultura e o agronegócio brasileiros têm colaborado com os ODS.

Rede de unidades da Embrapa: a Territorial está localizada em Campinas

Rede de unidades da Embrapa: a Territorial está localizada em Campinas

ODS 1 – Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares – O número de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema no mundo caiu pela metade desde 1990. Contudo, ainda existem quase 800 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia, que é o limite de pobreza estabelecido pelo Banco Mundial. Cerca de 75% das pessoas em situação de pobreza extrema vivem em áreas rurais e a maioria depende da agricultura para seu sustento e agricultura alimentar, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), acrescentando que 95% da população rural pobre vivem na Ásia Oriental, Ásia Meridional e África Subsaariana.

No Brasil, entre as iniciativas direcionadas para o empoderamento do pequeno agricultor e combate à pobreza rural destaca-se o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1995. Em 22 anos o Programa somou R$ 200 bilhões em operações, com 28,5 milhões de contratos efetivados e 1% de inadimplência. O avanço anual das operações foi permanente entre 2002-2003 e 2014-2015, crescendo de R$ 2,28 bilhões para R$ 23,86 bilhões. Houve redução nas safras seguintes, para R$ 22,12 bilhões em 2015-2016 e R$ 22,76 bilhões em 2016-2017, segundo a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem várias linhas de pesquisa voltadas para o fortalecimento do pequeno agricultor. Ente os dias 25 e 29 de junho, por exemplo, foi realizado na Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), o terceiro módulo do Curso de Capacitação em Sistemas Agroflorestais (SAF’s). O módulo contemplou a formulação de uma proposta de sistema integrado de cultivo para uma pequena propriedade, em Palmas. O evento foi organizado pela Embrapa, Secretaria do Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária (Seagro) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O pesquisador da Embrapa Florestas (Colombo-PR), Alexandre Uhlmann, que atua no Tocantins, explicou que foram utilizados na capacitação “elementos de floresta, como árvores que podem gerar madeira ou apenas frutos, e culturas tradicionais, como mandioca, milho e feijão caupi”. Os sistemas agroflorestais são, de fato, uma das principais contribuições brasileiras para o conjunto dos ODS.

Como produzir mais comida enquanto salvamos o planeta? (Foto: André Sarria)

“Como produzir mais comida enquanto salvamos o planeta?” (Foto: André Sarria)

ODS 2 – Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável – As projeções das Nações Unidas são de que em 2050 a população mundial será de  9,8 bilhões, quase 30% a mais do número atual, sendo o maior crescimento nos países em desenvolvimento. Aproximadamente 70% da população será urbana. Para alimentar essa população maior, urbana e rica, a produção de alimentos deverá aumentar em 70%”, afirma o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic. A produção de cereais, especificamente, teria que aumentar para 3 bilhões toneladas/ano em comparação aos 2,5 bilhões produzidos na atualidade. A produção de carne precisaria crescer em mais de 200 milhões de toneladas.

O pesquisador André Sarria nota que, de acordo com Achim Dobermamm, diretor do Rothamsted Research, no livro “Good Nutrition perspectives for the 21st century”, o ODS 2, de “Hunger Zero”, que envolve produzir comida e fornecer segurança alimentar através da agricultura sustentável, “é a mais complexa de todas as metas propostas. Agricultura sustentável envolve pelo menos cinco diferentes abordagens”, adverte.

“Uma agricultura sustentável – prossegue Sarria – deve ser a que oferece uma renda viável e sustento para agricultores ao longo de toda a cadeia comercial em qualquer país; que forneça alimentos nutritivos para toda a população; que se adapte às mudanças climáticas; que reduza gases de efeito estufa  e desmatamentos. Neste quesito Ásia, Africa e América do Sul encontram como alternativa para produzir mais alimentos derrubando mais florestas, uma caminho nada sustentável, os efeitos a longo prazo são catastróficos, e só para citar um deles está o surgimento de novas pragas e doenças que atacam as lavouras”.

No Brasil, o desmatamento, no período de 2015 a 2016, assinala André Sarria, “foi comparado à derrubada correspondente a 128 campos de futebol por hora de floresta, é o que diz a pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)”. No mundo, acrescenta, 26700 quilômetros quadrados de matas “são derrubados a cada ano para a formação de campos para agricultura”. E por fim, completa o pesquisador do Rothamsted Research, “uma agricultura sustentável é a que mantenha as culturas locais, cultura é inerente à agricultura. Porque comida é o produto final agrícola, comida serve como uma  poderosa expressão de como estamos ligados com a terra e ajuda a preservar nossas tradições sociais. O tipo de comida que consumimos, a maneira como é preparada, cozinhada, e como a comemos tudo isso articula quem somos e o que fazemos. Comida sempre estará moldando nossas culturas e tradições”.

O representante da FAO no Brasil não tem dúvidas. Ele entende que o país “se tornará o principal fornecedor para responder ao aumento da demanda global de importações de commodities”.  Como afirmou no  3º Fórum do Agronegócio, em Brasília, em abril de 2018, “até 2024, 2027 temos certeza de que o Brasil estará produzindo 300 milhões de toneladas de grãos, o que é chave para nós que pensamos em segurança alimentar para a população de todo o planeta”.

Os dados atuais ratificam as estimativas da FAO. A safra de grãos de 2017 foi de 240,6 milhões de toneladas. No dia 10 de maio o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calculou que a safra de 2018 será um pouco menor, de 230 milhões de toneladas, mas com crescimento de produção em 18 das 26 safras pesquisadas. A safra de soja, por exemplo, terá um recorde histórico, com 115,6 milhões de toneladas. Outras safras que terão aumento, segundo o IBGE: cevada (48%), trigo (32,5%) e aveia (23,5%), entre outras.

Mas não é só para o mercado externo que se voltam a agricultura e o agronegócio brasileiros, muito pelo contrário. A população do país cresceu muito nas últimas décadas. Desde 1940 a população cresceu cinco vezes, saltando de 41,1 milhões para 207 milhões em 2016, segundo o IBGE. Já a proporção de população urbana cresceu três vezes no mesmo período, indo de 26,3% em 1940 para cerca de 85% em 2016.

Neste contexto foi fundamental que a agricultura brasileira se modernizasse para atender à acelerada demanda interna. E houve momentos difíceis em relação ao abastecimento. “Sou de um tempo, registrado na minha memória, de crises alimentares. Hora do óleo de cozinha, depois do leite, passando pelo açúcar. Enfim, o desabastecimento em larga escala e suas consequências de desordem social. Hoje, nem pensar numa situação dessas”, resume o agrônomo Nelson Matheus, diretor da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo (Aeasp).

Nelson Matheus. da Aeasp: agricultura avança com aumento de produtividade (Foto Divulgação)

Nelson Matheus. da Aeasp: agricultura avança com aumento de produtividade (Foto Divulgação)

Para o agrônomo, o que se constata hoje é um quadro caracterizado pelo “aumento de produção sem avançar nas áreas de matas, graças a melhorias na produtividade, e com uma área total, utilizada pela nossa agricultura, correspondendo a 7,6 % do nosso território”. Ele não tem dúvidas em resumir os motivos pelos quais a agricultura e o agronegócio conseguiram aumentar de forma expressiva a produção de alimentos e outros produtos, para o mercado interno e para exportação. “Novas variedades e novas tecnologias de produção são a base dessa revolução tecnológica. Temos a melhor agricultura tropical do mundo”, define o especialista.

De fato, os avanços tecnológicos foram determinantes e um divisor de águas foi a criação da Embrapa, em 7 de dezembro de 1972. “Quanto à pesquisa agropecuária a criação da Embrapa e do Sistema Nacional de Pesquisa Agrícola (SNPA) representam um marco no processo de modernização da agricultura brasileira. Cria-se uma empresa pública de direito privado, com maior flexibilidade e agilidade na gestão. Concebe-se um modelo concentrado de pesquisa, capacitam-se recursos humanos em centros de excelência do Brasil e do exterior, equipam-se laboratórios com o objetivo de maximizar o tempo da inteligência humana”, afirmam Eliseu Roberto de Andrade Alves, Elisio Contini e José Garcia Gasques, em “Evolução da produção e produtividade da agricultura brasileira” (aqui).

Os mesmos autores dão exemplos de que como a pesquisa e o desenvolvimento foram cruciais para o avanço da agricultura nacional: “A ciência aplicada desvenda o mistério dos solos ácidos e anteriormente imprestáveis do Cerrado. As novas cultivares transformam em produção, a taxas crescentes, as descobertas científicas. A ineficiente e extensiva pecuária de corte da região cede lugar à agricultura tropical pioneira e eficiente. Incorporam-se, potencialmente, mais de 200 milhões de hectares à agricultura brasileira. O Brasil tornou-se exemplo, para o mundo, de como transformar recursos naturais inaproveitáveis em recursos produtivos. Atualmente, mais de um terço da produção de grãos brasileira provém da região do Cerrado. Melhorou-se, também, a pecuária, com a genética animal, o plantio de pastos e novas técnicas de nutrição”.

O resultado foi o aumento de produção, da área cultivada e da produtividade. Entre 1931 e 2007, a área cultivada de grãos cresceu dez vezes, enquanto a produção aumentou 20 vezes. Os autores notam que, entre a década de 1930 e meados da década de 1970, a produção cresceu com o aumento da área cultivada. A partir de 1975, o avanço aconteceu com o aumento da produtividade. Entre 1975 e 2007, “o indicador, para a média dos grãos, passou de um valor médio de 1.500 kg/ha para 3.000 kg/ha”. Com isso, entre 1977 e 2007, a área de cereais, leguminosas e oleaginosas aumentou em 8,7 milhões de hectares, enquanto a produção aumentou em 84 milhões de toneladas. Na safra de 1976/1977, a produção foi de 46,9 milhões de toneladas, quase seis vezes menos do que os 240,6 milhões de toneladas de 2017.

Os números são definitivos: a agricultura e o agronegócio brasileiros são estratégicos para o cumprimento do ODS 2. Para o agrônomo Nelson Matheus, as perspectivas continuam boas para a agricultura e o agronegócio, “apesar de ameaças principalmente do mercado internacional, grandes oscilações e protecionismos exagerados”. Ele observa que “a demanda mundial por alimentos vai continuar crescendo”. A concorrência na produção, para o Brasil, “dificilmente se altera, com a China investindo pesado na África e a Austrália podendo ampliar a produção, mas tem sérios problemas com água, isso para não entrar em outras dificuldades” do continente africano.

ODS 3 – Assegurar uma vida saudável e promover o bem estar para todos, em todas as idades – Uma boa saúde depende essencialmente da boa alimentação. Em 1963 a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu um Codex Alimentarius (“Código de Alimentação”), com normas uniformes de alimentação, baseadas com rigidez científica, visando proteger a boa saúde dos consumidores em todo planeta. Em 1985, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 39/85, com diretrizes de proteção ao consumidor e a indicação de que seja respeitado o Codex Alimentarius. O Brasil é um dos 188 países signatários do Codex, que se reúnem regularmente para avaliar e atualizar o Código.

O avanço da agricultura orgânica é uma das vertentes de destaque no Brasil, agregando novo ingrediente para a alimentação saudável. O crescimento do setor é estimado em 30% ao ano, com uma movimentação já superior a R$ 2 bilhões anuais.

ODS 4 – Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo dos anos – O processo de urbanização acelerada, que o Brasil vivenciou desde a década de 1940, teve como uma de suas consequências o esvaziamento da educação no meio rural, embora permaneça uma controvérsia sobre o que seria de fato população urbana. Na visão da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), são rurais os municípios com densidade menor que 150 habitantes por quilômetro quadrado. Se esta metodologia for observada, a população urbana no Brasil seria de 60% no total, e não os 85% considerados habitualmente.

De qualquer modo, a educação no meio rural passou por um processo de enfraquecimento e permanecem desafios como a alfabetização no meio rural. De acordo com o IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada em dezembro de 2017, o Brasil tem 11,8 milhões de analfabetos, correspondendo a 7,2% da população de 15 anos ou mais de idade. Na zona rural as taxas de analfabetismo são superiores à média nacional.

Outro desafio está na própria elaboração de estudos sobre a educação rural. Um levantamento (aqui) feito por Maria Nobre Damasceno e Bernadete Beserra (“Estudos sobre educação rural no Brasil: estado da arte e perspectivas”) mostrou que entre 1981 e 1998 somente 1,2% das teses de mestrado ou doutorado versou sobre temas rurais, incluindo a educação rural. Os números atuais não são muito diferentes. Ou seja, a própria academia está em débito com a situação do meio rural brasileiro.

Mas há também números apontando para melhores perspectivas. No dia 21 de junho, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – Esalq/USP, informou (aqui) que entre 2012 e 2018 a participação de pessoas com ensino superior, completo ou incompleto, no agronegócio aumentou 4,2%. Por outro lado, no mesmo período uma redução de 10,3% na participação da mão de obra com escolaridade inferior ao ensino médio no total de ocupados no setor.

ODS 5 – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas – Em todo mundo metade da força de trabalho agrícola é composta por mulheres. Elas exercem papel cada vez mais relevante na agricultura e no desenvolvimento rural, como trabalhadoras, empresárias e líderes comunitárias.

No Brasil, com o papel de peso do agronegócio na economia nacional, não é diferente. Uma pesquisa – “Todas as mulheres do agronegócio” (aqui) – coordenada pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAG), a partir de entrevistas com 862 mulheres, atuando “antes e dentro da porteira”, mostrou um perfil da presença feminina no segmento.

Do conjunto de entrevistadas, 49,5% trabalham em minifúndios, 54,4% moram na cidade, 42,7% dividem tarefas domésticas, 55,5% se sentem totalmente preparadas para suas funções, 36,2% escolheram trabalhar no campo porque gostam do setor, 59,2% são proprietárias ou sócias e 56,2% se preocupam mais com a estabilidade financeira.

A pesquisa evidenciou que as mulheres estão presentes na quase totalidade das funções na propriedade rural, junto com os homens, desde dirigir máquinas agrícolas e caminhões até contratar, pagar e demitir funcionários e dirigir os negócios e participar de congressos e feiras do setor. Apenas no item “carregar caminhão” os homens são preponderantes, sendo os únicos responsáveis por 70,4% da atividade.

Alguns pontos da pesquisa apontam para desafios a serem superados. Somente 25,8% relataram não terem percebido preconceito relacionado à sua atuação, mas 30% apontaram a existência de um preconceito sutil e 44,2% indicaram a ocorrência de “preconceito evidente”.

Evaristo de Miranda, da Embrapa Territorial: "Irrigação pode ser muito ampliada" (Foto Suzi Carneiro/Divulgação)

Evaristo de Miranda, da Embrapa Territorial: “Irrigação pode ser muito ampliada” (Foto Suzi Carneiro/Divulgação)

ODS 6 – Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos – A utilização eficiente da água é sempre um desafio para a agricultura. E esta é uma preocupação constante dos agricultores, garante Horácio de Paula e Silva, proprietário de uma fazenda de café no município de Itamogi, Sudoeste de Minas Gerais, uma das maiores regiões produtoras do país. “Não acredito que haja produtor rural que não se preocupe com a água, com suas nascentes. Ele sabe que precisa da água. Preservando as nascentes, ele não vai precisar se socorrer de alguém, ou da Prefeitura, em um momento de seca”, diz Horácio. Ele conta que, pelos cuidados com os recursos hídricos na propriedade, não teve muitos problemas durante a forte estiagem que castigou a Região Sudeste do Brasil entre 2014 e 2015. Pelos mesmos motivos, acredita que a regra entre os agricultores é se preocupar com a preservação das matas, vitais na proteção das nascentes.

A expansão da irrigação é considerada outra estratégia segura para a sustentabilidade crescente no uso dos recursos hídricos. Entre 2000 e 2015 a área irrigada no país aumentou de 3 milhões para 5,4 milhões de hectares. Estudos produzidos na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – Esalq/USP apontam que o Brasil pode aumentar em dez vezes a área irrigada nos próximos anos.

“A irrigação era feita antes apenas pela ação dos órgãos oficiais, como o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), mas tem crescido muito a irrigação privada, com muita eficiência”, observa o chefe da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, que vê um potencial enorme nessa área. Ele cita o caso da irrigação no polo de frutas e vinho do Vale do Rio São Francisco, entre Bahia e Pernambuco.

Não por acaso, em plena crise econômica de 2017, os municípios de Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e Casa Nova (BA) foram, respectivamente, o 5º, o 7º e o 18º no ranking dos que mais criaram empregos, entre janeiro e outubro do ano passado, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Juntos, criaram 12.700 empregos formais.

ODS 7 – Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos –  Por causa da biomassa, o setor agrícola cada vez mais gera a sua própria energia, além de contribuir com a distribuição energética como um todo. Na realidade a biomassa já é a terceira fonte energética do país, sendo responsável por 9% da eletricidade consumida. A queima do bagaço da cana responde por 78% da energia de biomassa, mas também contribuem insumos como capim elefante, casca de arroz e cavaco de madeira. A biomassa é igualmente utilizada no processamento de biodiesel, biogás e outros biocombustíveis.

Em 2016, 12 milhões de lares brasileiros foram abastecidos com energia a partir da biomassa, assinala Evaristo de Miranda, da Embrapa Territorial. Essa modalidade de abastecimento evitou que fossem emitidas 10 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Entre o leque de alternativas crescentes, no âmbito da contribuição da agricultura para a geração de energia, completa Miranda, está o da geração através de biocombustíveis gasosos, a partir de dejetos de origem vegetal e animal e do carvão vegetal. Entre 2015 e 2016 o biogás produzido a partir de dejetos, sobretudo na área de suínos, cresceu 46,2% em volume.

Miranda entende que as tecnologias existentes e em constante evolução garantiriam o crescimento ainda maior do uso da biomassa com fins energéticos. O que devem ser superados, adverte, são os conflitos políticos.

ODS 8 – Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos – O agronegócio tem sido fundamental como motor de crescimento econômico no Brasil, em períodos de bonança ou de crise. Desde meados da década de 1990, segundo o Cepea da Esalq-USP, o PIB do agronegócio brasileiro oscila entre R$ 1,3 trilhão e R1,4 trilhão anuais, correspondendo de 20 a 25% do PIB brasileiro.

Entre 2007 e 2016, o país acrescentou 10 milhões de hectares às terras de cultivo no mundo, ficando a Argentina em segundo lugar, com 8 milhões de hectares. Para o período de 2017-2026, o Brasil deve aumentar o mesmo território em áreas de cultivo, segundo as “Perspectivas Agrícolas 2017-2026″, da OCDE e FAO (aqui). As estimativas são, portanto, de fortalecimento do papel do Brasil no fornecimento mundial de alimentos e, consequentemente, em termos de geração de emprego e renda no país. Em 2026 o Brasil continuará sendo o maior exportador de carne de vaca e se consolidará como o maior exportador de soja, de acordo com as mesmas “Perspectivas Agrícolas 2017-2026″.

PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA NO BRASIL (Milhões de toneladas)

Produto                2002            2007            2012            2016

Algodão                  2,1                  4,1               4,9               3,4

Bovino                    185                 199              211               218 (milhões de cabeças)

Café                         2,6                  2,2                 3                  3

Cana-de-açúcar    364                 549               721              768

Galináceo               884                  1,1bi              1,2 bi          1,3 bi (mi de cabeças)

Soja                           42                      57                 65                96

Fonte: Produção Agrícola Municipal e Pesquisa Pecuária Municipal, do IBGE

 

O crescimento na produção de soja será de 2,6% ao ano no Brasil, em relação ao 2,1% de crescimento anual na Argentina e 1,0% nos Estados Unidos. O país aumentará sua produção de milho em mais 22 milhões de toneladas e continuará sendo o maior produtor e exportador mundial de açúcar (48% das exportações globais em 2026). Brasil e Estados Unidos aumentarão em 44% as exportações de carne, passando a responder por 70% do aumento esperado das exportações totais até 2026. A produção de etanol deve crescer 40% na próxima década, considerando a normativa obrigatória de acréscimo de 10% a partir de 2019. O Brasil será o segundo maior exportador de algodão, atrás dos Estados Unidos.

No dia 21 de junho, o Cepea da Esalq/USP informou que entre 2012 e 2018 o salário médio do trabalhador do agronegócio cresceu acima da média recebida pelo trabalhador brasileiro em geral. O salário do trabalhador do agronegócio cresceu 10% no período, em comparação com o aumento médio geral de 6,36%.

ODS 9 – Construir infra-estruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação – Inovação é o que não tem faltado na agricultura e no agronegócio brasileiros. O ecossistema de inovação no setor é cada vez mais sólido. Estão em curso promissoras iniciativas nesse campo.

É o caso do Vale do Piracicaba, nascido com o objetivo de identificar, caracterizar e organizar o sistema de inovação tecnológica existente na cidade. Foram identificadas cerca de 100 empresas e instituições em Piracicaba que trabalham na formação e capacitação de profissionais e em pesquisas e comercialização de produtos com alta tecnologia envolvida. O centro irradiador é a ESALQ, mas em termos acadêmicos o Vale do Piracicaba conta com a Unimep, FATEC Piracicaba (que tem cursos em Alimentos, Biocombustíveis e Gestão Empresarial) e Escola de Engenharia de Piracicaba. São dezenas de empresas consolidadas que atuam com agronegócio na cidade, como a gigante Caterpillar e muitas outras, em biotecnologia, computação para agricultura etc.

No desenvolvimento de produtos de alta densidade tecnológica em agropecuária estão, entre outros, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a Fermentec. Em dezembro de 2017, foi anunciada a aquisição, pela holandesa Koppert Biological Systems, da BUG Agentes Biológicos, sediada em Piracicaba. Foi mais um forte sinal do potencial do Vale do Piracicaba para a inovação nas áreas agrícola e biológica.

ODS 10 – Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles – Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de 2001 a 2015, resultaram em conquistas positivas. Em 1990, quase da metade da população em regiões em desenvolvimento no mundo vivia com menos de 1,25 dólares por dia. Em 2015 a proporção caiu a 14%, segundo o Informe dos ODM publicado pela ONU (aqui). Entretanto, entre os desafios que ficaram está o da redução das desigualdades em nível global e no Brasil não é diferente.

Um dos impactos do agronegócio no Brasil é que ele tem contribuído para a redução das desigualdades econômicas regionais. O caso mais evidente é o da Região Centro-Oeste, que tem aumentado a sua participação no PIB nacional de modo sistemático, devido em grande parte ao avanço do agronegócio. Em 1970, a sua participação no PIB brasileiro era de 3,8% e atualmente é de cerca de 10%, correspondendo a aproximadamente R$ 480 bilhões. Entre 1960 e 2013 a população do Centro-Oeste aumentou seis vezes, chegando a mais de 18 milhões, enquanto a produção de grãos alcançou 82 milhões de toneladas (43,5% da produção nacional naquele ano) e o rebanho bovino, a 93 milhões de cabeças (44% do total do país), como informou Júlio Flávio Gameiro Miragaya, em “O desempenho da economia na Região Centro-Oeste” (aqui) , capítulo do livro “Um olhar territorial para o desenvolvimento: Centro-Oeste” (BNDES, 2014).

ODS 11 – Construir cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis – Atualmente metade da população mundial mora nas cidades. Em 2030, serão 60% da população vivendo nas áreas urbanas. No Brasil, 85% da população já habitam as cidades, conforme os critérios tradicionais, embora os da OCDE sejam diferentes.

Para que os assentamentos humanos sejam de fato sustentáveis e inclusivos, um dos pressupostos é o de que tenham segurança alimentar, o que só pode ser proporcionado por uma agricultura fortalecida. Nesse sentido o agronegócio brasileiro jogará um papel cada vez mais estratégico, como acentuou o representante da FAO no país.

Plantação de soja no Centro-Oeste: é possível plantar sem desmatar, de acordo com a Moratória da Soja (Foto Adriano Rosa)

Plantação de soja no Centro-Oeste: é possível plantar sem desmatar, de acordo com a Moratória da Soja (Foto Adriano Rosa)

ODS 12 – Assegurar padrões de produção e consumo sustentáveis – Um dos preceitos básicos da sustentabilidade é o aproveitamento ao máximo dos recursos existentes. Vários segmentos do agronegócio no Brasil têm aplicado a regra ao pé da letra. Um exemplo notável é o da pecuária, observa o chefe da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda. “Temos uma pecuária cada vez mais verde, com reciclagem em larga escala”, define.

“O sebo do boi é utilizado no processamento de biodiesel. As vísceras e ossos, como insumos para comidas de pets. O sangue liofilizado é muito valioso, sendo usado pela indústria farmacêutica. O couro, pelos curtumes e fabricantes de roupas e calçados”, cita Evaristo de Miranda.

Ele também cita a enorme diversidade genética do rebanho bovino brasileiro como um fator muito positivo. São 1,3 milhão de produtores de leite no país, estando a atividade leiteira presente em 99% dos municípios brasileiros, sendo a fonte de emprego para 4 milhões de pessoas, 11 mil dos quais no transporte da fazenda para a indústria, além dos lácteos processados para os pontos de venda.

“Temos quase 220 milhões de cabeças de gado bovino no Brasil, 30 milhões a mais do que em 1990. Nesse período a produtividade da carne aumentou 229%, ao passo que a área de pastagens diminuiu em mais de 12%”, destaca Miranda, para quem são injustas, portanto, as críticas de que a pecuária é responsável pelo desmatamento.

Ele admite que a produtividade das pastagens ainda é baixa, com taxa de ocupação de 1,33 cabeça por hectare e lotação de 0,93 unidade animal/ha. Entretanto, essa produtividade também vem crescendo, completa. Ele cita os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), em constante evolução no Brasil, como um emblema do aumento na sustentabilidade no setor. Em pastagem irrigada, cita, podem ser atingidos 4.500 hectares por ano.

ODS 13 – Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos – O sucesso no combate à mudança do clima depende basicamente de uma economia de baixo carbono. Nesse sentido a agricultura brasileira pode contribuir ainda mais, de acordo com os especialistas.

O chefe da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, cita o caso de sucesso do etanol, para reiterar o potencial da agricultura brasileira na área energética. Dos 1,98 milhão de veículos leves licenciados no país em 2017, lembra, 88% eram flexfuel. Miranda observa que, além do etanol da cana-de-açúcar, já estão em operação no Brasil unidades produzindo etanol de segunda geração, tendo como insumos a palha e o bagaço da cana. “O etanol e o álcool anidro são eficientes na redução de emissões de dióxido de carbono”, sustenta Miranda. “O carbono que é emitido na produção acaba sendo retirado da atmosfera por ocasião da renovação do plantio e do cultivo”, explica.

Também gera muita esperança a aceleração na produção de biodiesel, acrescenta o pesquisador. Em 2008 a produção foi de 1,2 bilhão de litros de biodiesel. Em 2010 a produção tinha dobrado e, em 2016, foi de 3,8 bilhões de litros. Miranda acredita que, com políticas propícias, a produção de biodiesel pode dar saltos ainda maiores.

O produtor de café Horácio de Paula e Silva, do Sudoeste mineiro, afirma que tem percebido claramente a mudança do clima, afetando a lavoura. Ele conta que, nos últimos dias do outono deste ano, de repente se viu com uma roupa leve, trabalhando de madrugada na lavoura. “Há alguns anos isso não seria possível. Eu teria que estar muito bem agasalhado”, relata. Horácio assinala que, em função das mudanças do clima, o café tem ficado maduro por um período menor, secando mais rápido no pé, o que exige cuidados do produtor, para que não haja interferência, depois, na qualidade da bebida.

ODS 14 – Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável - Os oceanos estão sendo sistematicamente afetados pelas mudanças climáticas, poluição por plástico e outros produtos, pela sobrepesca e demais fatores que agravam os riscos para a biodiversidade marinha. Entretanto, com os cuidados necessários, a FAO estima que a pesca e a aquicultura podem contribuir muito para a segurança alimentar, a geração de emprego e renda e para a diminuição da pobreza.

As estimativas são de que, em 2015, a produção mundial de captura de peixes, crustáceos, moluscos e outros animais aquáticos chegou a 92,6 milhões de toneladas. Entre 1970 e 2015, a produção global da aquicultura aumentou de 3 para 76,6 milhões de toneladas, segundo a FAO.

Principais ameaças aos solos e sugestões de ação, segundo a FAO (Divulgação Aliança Mundial pelo Solo)

Principais ameaças aos solos e sugestões de ação, segundo a FAO (Divulgação Aliança Mundial pelo Solo)

ODS 15 – Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra deter a perda da biodiversidade – A FAO estima que 33% dos solos em todo o mundo estão degradados. Uma das ações mais abrangentes e consistentes para reverter este cenário e para prevenir novos avanços na degradação é a Aliança Mundial pelo Solo (http://www.fao.org/global-soil-partnership/es/), criada em dezembro de 2012 por inspiração da própria FAO, com o objetivo de desenvolver uma forte coalizão interativa e “uma melhorada colaboração e sinergia de esforços entre as partes interessadas”. Foram estruturadas alianças regionais e o Brasil integra a Aliança Sulamericana pelo Solo. Brasileiros são os responsáveis por dois dos cinco pilares da Aliança em esfera regional: Pedro Luiz de Freitas (Pilar 1 – Gestão do Solo) e Jefé Leão Ribeiro (Pilar 5 – Harmonização ). Os outros três pilares da Aliança Mundial pelo Solo e alianças continentais são: 2 – Fomento, 3 – Pesquisa e 4 – Informação e dados.

O chefe da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, nota que nenhum país no mundo tem mais áreas protegidas que o Brasil, segundo dados do próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Em três décadas, no período de maior crescimento da produção agrícola e ampliação da área cultivada, aumentou muito o território das áreas protegidas no Brasil, diz Miranda.

Em 1988, eram 248 Unidades de Conservação (UCs), somando 19,8 milhões de hectares, ou 2,3% do território brasileiro. Em 2017 eram 1.871 unidades de conservação, incluindo as Áreas de Proteção Ambiental (APAs), abrangendo uma área de 154,4 milhões de hectares, ou 18% do território nacional. Além disso, existem as Terras Indígenas (TIs), que devem ser demarcadas e protegidas, segundo a Constituição de 1988. Até 1988 eram 60 TIs, ocupando 16,1 milhões de hectares, equivalentes a 1,9% do território brasileiro. Em 2017 eram 600 TIs, abrangendo área de 117,9 milhões de hectares, correspondendo a 14% do Brasil. A Amazônia concentra 83,2% das áreas protegidas brasileiras, seguida do Cerrado, com 9,8% das áreas protegidas. No total o Brasil tem 28,9% de sua área terrestre protegida, liderando o ranking mundial, à frente da Austrália (19,2% de área terrestre protegida), China (17,0%), Estados Unidos (13,0%) e Rússia (9,7%), segundo o PNUMA (aqui).

Para o chefe da Embrapa Territorial, os avanços tecnológicos, o aumento da produtividade e novas formas de manejo da terra têm sido fundamentais para a contribuição do agronegócio para a preservação e proteção da vegetação nativa no Brasil. O país, lembra Evaristo de Miranda, destina 7,6% de seu território para o cultivo agrícola, “com muita tecnologia tropical e profissionalismo”. Ou seja, muito menos que a maioria dos países, que usam entre 20% e 30% de seus territórios para a agricultura. “Os membros da União Europeia usam entre 45% e 65%; Estados Unidos, 18,3%; China, 17,7%; Índia, 60,5%”, informa Miranda, em seu livro “Tons de Verde – A Sustentabilidade da Agricultura no Brasil” (Metalivros, São Paulo, 2018, página 73).

Miranda sustenta que os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), presentes de forma evolutiva no Brasil, são uma configuração exemplar em termos de proteção dos recursos naturais e da biodiversidade.

ODS 16 – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis – As Nações Unidas, que coordenam a implementação dos ODS, consideram que a segurança alimentar é um dos ingredientes para a superação de situações de violência. As estimativas são de que 489 milhões, das 815 milhões de pessoas passando por desnutrição no planeta, vivem em países afetados por conflitos.

No cenário brasileiro, também há múltiplos desafios. Um deles é com o aumento do roubo nas propriedades e das cargas agrícolas em caminhões. “Esse problema tem preocupado muito os produtores”, destaca Horácio de Paula e Silva, proprietário rural em Itamogi, Minas Gerais. Ele lembra que já houve vários casos de roubos na região e entende que uma das formas de resolver a situação é com a abertura de linhas de seguros para a produção ainda na propriedade rural.

Campus da Esalq, em Piracicaba: parcerias pelo desenvolvimento sustentável (Foto José Pedro Soares Martins)

Campus da Esalq, em Piracicaba: parcerias pelo desenvolvimento sustentável (Foto José Pedro Soares Martins)

ODS 17 – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável – São múltiplas as parcerias firmadas envolvendo o setor agrícola, contribuindo com a implementação da Agenda 2030. Uma sólida cooperação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) resultou por exemplo no Projeto Campo Futuro, que tem ainda a participação de universidades e centros de pesquisa, como a própria Embrapa, além das Federações de Agricultura e Pecuária dos Estados. O projeto visa a capacitação do produtor rural, considerando a geração de dados para a administração de custos, de riscos de preços e gerenciamento da produção. Maior geração de produção e renda e maior eficiência no uso de recursos são alguns dos resultados do Projeto Campo Futuro para os agricultores beneficiados.

As coletas se informações acontecem através dos chamados painéis, que são encontros técnicos realizados no local da cadeia produtiva, com a participação de todos os agentes. Em 2017 foram promovidos 147 painéis para levantamento de custos de produção, reunindo informações de 39 culturas.

Entre outros centros de pesquisa envolvidos, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), sediado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, é responsável pelo levantamento e monitoramento dos dados de grãos (algodão, arroz, milho, soja e trigo), aves e suínos, pecuária de corte e pecuária leiteira e o Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), também sediado na Esalq, é a instituição parceira responsável pelo levantamento e monitoramento dos dados da cana-de-açúcar.

Em dezembro de 2017 a FAO firmou parceria com o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, pela viabilização do Projeto Redeser: Revertendo o Processo de Desertificação nas Áreas Suscetíveis do Brasil — Práticas Agroflorestais Sustentáveis e Conservação da Biodiversidade. O projeto prevê o incentivo a práticas como a restauração de florestas e paisagens, o manejo florestal de uso múltiplo, a gestão de conhecimento e a promoção da gestão integrada dos recursos naturais em paisagens produtivas, ao lado da capacitação e sensibilização.

Serão beneficiados os municípios de Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Cascado e Piranhas, em Alagoas; Uauá, na Bahia; Crato, Barbalha e Jardim, no Ceará; Barreirinhas, Água Doce, Tutóia e Matões, no Maranhão; Santa Luzia, São Mamede e Várzea, na Paraíba; Carnaúba dos Dantas, Equador, Parelhas e Santana do Seridó, no Rio Grande do Norte.

Haverá um investimento de US$ 3,9 milhões, abrangendo recursos do Fundo Mundial para o Ambiente (GEF, na sigla em inglês) e contrapartida de 18 cofinanciadores: Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza (AGENDHA); Associação de Plantas do Nordeste (APNE); Fundação Parque Tecnológico de Paraíba (CEPIS); Fundação Araripe; FAO; Fundação de Educação Tecnológica e Cultural (FUNETEC); Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS); Centro Mundial Agroflorestal (ICRAF); Instituto Nacional do Semiárido (INSA); Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA); MMA; Secretaria de Agricultura da Paraíba (SEAFDS); Serviços de Apoio para Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC); Secretaria de Meio Ambiente da Paraíba (SEIHRMACT); Secretaria de Meio Ambiente de Crato (SEMA); Secretaria de Meio Ambiente de Alagoas (SEMARH); Secretaria de Planejamento do Rio Grande do Norte (SEPLAN); Serviço Florestal Brasileiro (SFB).

O agrônomo Nelson Matheus entende que a agricultura e o agronegócio brasileiro podem ajudar ainda mais no desenvolvimento sustentável. “Precisamos de estradas rurais de terra, bem cuidadas, ligando do local de produção para fora da porteira, e também armazéns de estocagem, portos marítimos e pluviais bem administrados e rede de transportes de carga, cada vez mais variada com preponderância das ferrovias”, cita ele. Também defende mais incentivo à pesquisa agronômica, “estrategicamente pensada considerando os desafios que temos na produção”.

Ele cita o exemplo de “dezenas e dezenas de frutas no Cerrado, com um potencial imenso de desenvolvimento, a partir de cores, sabores e aromas inéditos. Nós e o mundo temos “fome” dessas novidades”, conclui o diretor da Aeasp, resumindo o sentimento de muitos a respeito do potencial incomensurável da agricultura e do agronegócio do país.

Na mesma linha, Xico Graziano arremata: “Os avanços são extraordinários em todos os segmentos da produção agropecuária. Esta crise recente nos últimos 3 anos deixou claro que, se não fosse a força do campo, o país estaria quebrado. Nosso retrocesso maior, e nosso grande problema, é a insegurança jurídica sobre a propriedade rural”. E também pontua que “falta a definição de uma política de apoio de médio e longo prazo, saindo do imediatismo atual, e falta muito investimento na infraestrutura da produção e da logística de cargas”.

 

 

 

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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