ONU já admite que metas de governos não serão suficientes para combater mudanças climáticas
Cenário no Sistema Cantareira, no auge da crise hídrica, que está longe de ser equacionada (foto Adriano Rosa)

ONU já admite que metas de governos não serão suficientes para combater mudanças climáticas

O Secretariado da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas divulgou nesta sexta-feira, 30 de outubro, um relatório inquietante, indicando – ou admitindo – que as metas e ações apontadas pelo conjunto de países que participarão da Conferência do Clima (COP-21) em Paris no final do ano não serão suficientes para evitar que a temperatura média global atinja no máximo 2 graus centígrados até 2100. O Secretariado estima que os esforços projetados farão com que a temperatura atinja cerca de 2,7 graus até o final do século, o que representaria grandes impactos, como maiores secas em algumas regiões e chuvas intensas em outras, maior derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos. Será então necessário enorme esforço dos chefes de Estado e governos que estarão na capital francesa para que se chegue a um acordo sobre a redução da emissão de gases que alimentam as mudanças climáticas.

O relatório fez uma síntese dos documentos referentes às chamadas Contribuições Pretendida Nacionalmente Determinadas (INDCs), na prática o que 147 países pretendem fazer para a redução de suas emissões atmosféricas nas próximas décadas. Esses 147 países representam 75% dos países que aderiram à Convenção das Mudanças Climáticas e a 86% das emissões globais de gases-estufa em 2010. Portanto, trata-se de um universo mais do que representativo do que o conjunto da comunidade internacional pretende fazer para cortar as suas emissões.

Os números apontados pelo documento são de fato muito preocupantes. A implementação das metas apontadas indica uma emissão global de 55,2 (o mais provável entre 52,0 e 56,9) Gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq) até 2025 e de 56,7 (entre 53,1 e 58,6)  Gton de CO2 eq até 2030. As emissões globais acumuladas desde 2011 chegariam a 541,7 Gton de CO2 eq em 2025 e a 748 Gton de CO2 eq em 20130.

Esses números indicam que, com os cortes previstos pelos governos, as emissões seriam de 34 a 46% maiores em 2025 e entre 37 a 52% maiores em 2030 em relação a 1990; de 29 a 40% maiores em 2025 e de 32 a 45% maiores em 2030 do que em relação a 2000: e de 8 a 18% maiores em 2025 e de 11 a 22% maiores em 2030 em relação a 2010.

As emissões per capita, segundo os cortes projetados pelos governos, cairiam entre 8 e 4% em 2025 e entre 9 e 5% em 2030 em relação a 1990 e 2010, respectivamente.

De acordo com o Secretariado da Convenção das Mudanças Climáticas, os esforços agregados apontados pelos governos até o momento não serão suficientes para manter a temperatura global em até 2 graus centígrados a mais até 2100. O documento assinala que a projeção de aumento global de temperatura até o final do século depende justamente das emissões até 2030. Ou seja, as metas e ações agregadas não melhorarem, o objetivo de se chegar no máximo a 2 graus centígrados até o final do século – cenário mais otimista previsto pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) – não será atingido.

O Secretariado observa que as emissões são cumulativas e, portanto, maiores emissões nos próximos anos exigirão esforços mais dispendiosos posteriormente,  de modo que seja atingido o propósito de evitar um aumento global de temperatura em no máximo 2 graus até 2100 em relação aos níveis pré-industriais. Esforços maiores de redução agora terão melhor resultado, portanto.

Em resumo, as projeções a partir do que os governos sinalizaram indicam que a temperatura média global pode subir até 2,7 graus centígrados até o final do século 21. O Secretariado afirma que se trata de uma média muito melhor do que os 4 ou 5 graus de aumento de temperatura que eram projetados antes da adoção do sistema das INDCs. O relatório das Nações Unidas é divulgado cerca de um mês antes do início da Conferências das Partes (COP-21) da Convenção das Mudanças Climáticas, que será realizada em Paris. (Por José Pedro Martins) 

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