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Olimpíadas: O chamado do atleta
Maurren Maggi fez um ''salto de despedida', aos 39 anos, nas Olimpíadas Rio 2016; em 2008, em Pequim, ela se tornou a primeira mulher brasileira campeã olímpica em um esporte individual (Fotos: Reprodução internet)

Olimpíadas: O chamado do atleta

Por Adiana Menezes

A terceira e última parte da resenha do livro “O Atleta e o Mito do Herói”, da pesquisadora Katia Rubio, jornalista e psicóloga da Universidade de São Paulo (USP), trata sobre significações, símbolos e mitos.

“A intenção da autora é demonstrar como o chamado do atleta para a prática esportiva se assemelha ao chamado do herói pela aventura, e como esse mito sobrevive naqueles que incorporam o personagem em determinado momento histórico e como acabam por se tornar referência para outros que virão. (…) A ideia de herói, portanto, é dinâmica e adéqua-se à concepção de homem e de mundo.”

A leitura pode ampliar a visão do leitor e espectador que acompanha as Olimpíadas Rio 2016 em curso. Confira também as duas primeiras partes da resenha do livro de Katia Rubio (clique aqui para ler a primeira parte; e aqui para a segunda parte).

Resenha (3ª parte)

Significações

O mundo social é cada vez mais constituído e articulado em função de um sistema de significações. Cada sociedade “escolhe” seu simbolismo, principalmente o simbolismo institucional, aos quais subordina a ‘funcionalidade’, segundo o filósofo Cornelius Castoriadis, para o qual não é possível compreender a história humana fora da categoria do imaginário.

No livro “O Atleta e o Mito do Herói”, Katia Rubio volta a Gilbert Durand, para quem o imaginário e as grandes imagens arquetípicas produzem e são produzidas no trajeto antropológico.

Ela não fica apenas nos teóricos da Comunicação e da História ou Psicanálise. Passa pelos poetas brasileiros, como Vinícius de Moraes, quando fala sobre o regime diurno da imagem e a estrutura heroica. Transcreve pequeno trecho de uma composição do poetinha: “não existiria a luz se não fosse a escuridão”, ilustrando assim o regime diurno como o regime da antítese, regime filosófico da separação, da dicotomia, da transcendência que aparece na história do pensamento ocidental.

A negação da queda e a busca da ascensão vão determinar a dominante postural, de onde derivará a estrutura heroica. Os símbolos encontrados com mais frequência nessa estrutura são as armas – a flecha, o raio, a espada e o cetro – e as imagens que remetem à ascensão, à dominação de maneira viril. Existe uma necessidade heroica das armas e da luz.

Os símbolos ascensoriais representados pelo esquema da elevação e os símbolos verticalizantes são metáforas axiomáticas por excelência, afirma Katia Rubio. Daí ela parte para o regime noturno e as estruturas mística e sintética.

Símbolos e mitos

Quando fala do místico, as palavras veem de uma forma mais poética. Ela fala sobre o eufemismo, a melodia, as cores, a noite e os símbolos da intimidade. Fala de morte, sepulcro e mandala. Se na estrutura mística a musicalidade era apreendida pela melodia, diz ela, na estrutura sintética ela se dá pela harmonização, cuja função essencial é conciliar os contrários, dominar a fuga existencial do tempo. Os símbolos que constelam na estrutura sintética são cíclicos.

O modelo de “personalidade” nos dias atuais é respeitado e utilizado como referencial de projeção de alguém. Isso explica a necessidade de incorporar o mito e o herói no trabalho que ela propõe. A intenção da autora é demonstrar como o chamado do atleta para a prática esportiva se assemelha ao chamado do herói pela aventura, e como esse mito sobrevive naqueles que incorporam o personagem em determinado momento histórico e como acabam por se tornar referência para outros que virão.

Deuses e heróis

Quando finalmente chega ao herói como personagem mítico, a autora vai para a mitologia grega. Herói, afinal de contas, é o nome dado por Homero, lembra a autora, aos homens que possuem coragem e méritos superiores, favoritos entre os deuses. Para Hesíodo são filhos da união entre um deus e uma mortal ou de uma deusa com um mortal. Ainda na mitologia grega, os heróis são apontados como protetores das cidades. O herói é uma idealização (Brandão, 1999).

Mas o herói não é encontrado somente na estrutura mitológica grega. O mito do herói é o mais comum e mais antigo do mundo, reconhecido na mitologia clássica da Grécia e Roma, na Idade Média, no Extremo Oriente e entre diversas tribos contemporâneas.

O herói tem um poder de sedução dramática flagrante e uma importância psicológica profunda. As histórias de heróis variam de cultura para cultura.

Sobre as diferenças entre esses tipos heroicos, Joseph Campbell afirma: Existe um herói atípico das culturas arcaicas, que sai por aí matando monstros. É uma forma de aventura do período pré-histórico, quando o homem estava moldando o seu mundo, a partir da selvageria perigosa… O herói evolui à medida que a cultura evolui.

Assim o herói ganha novas formas e roupagens, completa Katia Rubio. Como Moisés que sobe as montanhas e traz as tábuas da lei; Jonas que é engolido pela baleia mas retorna vivo; ou Luke Skywalker, em Guerra nas Estrelas, que enfrenta o próprio pai para depois salvá-lo. O herói está em todas s mitologias.

A ideia de herói, portanto, é dinâmica e adéqua-se à concepção de homem e de mundo. Sustentar que só o personagem tipo homérico merece o adjetivo de herói significa postular uma visão de humanidade linear.

Temos, então, que a vitória sobre si-próprio é a grande propulsora do herói de todos os tempos. O mito se transforma com as mudanças da sociedade e da cultura.

Arthur Zanetti foi o primeiro brasileiro a conquistar o ouro da ginástica artística, em Londres 2012, na prova das argolas

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Esporte e heroismo

Dentre os vários fenômenos que a sociedade moderna tem produzido para a emergência de atitudes heroicas, o esporte vem ocupando um dos lugares mais destacados. O esporte contemporâneo absorveu uma série de características da sociedade industrial moderna, como secularização, igualdade de chances, especialização, racionalização, burocratização, quantificação e busca de recorde, princípios que regem a sociedade capitalista pós-industrial e marcam hoje a prática esportiva, onde o rendimento é o princípio norteador.

O antropólogo Roberto DaMatta acrescenta que o esporte no mundo moderno tem forte ligação com aspectos da vida burguesa, como a disciplina e o fair play (que trivializa a vitória e o fracasso).

Diferente do atleta da Antiguidade, que tinha sua preparação física e atlética como um elemento da sua educação e da sua formação enquanto cidadão, cujos desdobramentos eram a preparação para a guerra e a proteção da polis, o atleta de alto rendimento hoje tem sua imagem vinculada ao espetáculo e ao lazer. Seus feitos são capazes de levar multidões a estádios e ginásios, em momentos de espetáculo, ou causar dor e comoção em casos de acidente ou morte.

Os feitos dos atletas, considerados quase sobre-humanos, somados ao tipo de vida regrada a que são submetidos contribui para a sedimentação da imagem do herói. Enquanto figura mítica, o herói representa o mortal, que transcende de sua condição e aproxima-se dos deuses em razão de um grande feito.

O atleta como metáfora do herói

Temos, portanto, o atleta de alto rendimento como uma espécie de herói.

Vivemos em um tempo em que o esporte é tido como atividade central nas sociedades contemporâneas, com um conjunto próprio de valores a serem observados e analisados.

Os produtos de mídia emergem e o público é atraído por mensagens e valores que refletem as expectativas contemporâneas, não de maneira direta e objetiva, mas quase sempre de maneira metafórica.

O novo Olimpo onde esses heróis habitam é o produto mais original do novo curso da cultura de massa. Os olimpianos fazem três universos se comunicarem: o do imaginário; o das normas; e o da informação, dos conselhos e incitações. Concentram neles os poderes mitológicos e os poderes práticos da cultura de massa.

O esporte, visto como mais um produto de consumo, precisa criar protagonistas para vender um espetáculo esperado e desejado. A consequência disso é a racionalização daquilo que ele possui de mítico.

Ela fala da gênese ao esporte contemporâneo. Visita a Grécia novamente e lembra que, para os gregos, a ginástica era uma obrigação moral, enquanto formação do corpo, dirigida a conseguir beleza e força. Segundo Sócrates, o descuido dessa obrigação era uma vergonha. Para Platão, o mais parecido com a agilidade mental era a agilidade corporal. A competição para os gregos era considerada um princípio vital.

O esporte e a atividade física chegam ao século XIX acompanhando as transformações políticas e sociais que começaram no século anterior com o Iluminismo, a Revolução industrial e a Revolução Francesa. Até o final do século XVIII o esporte era uma prática tipicamente aristocrática. No século XIX, na Inglaterra, o esporte passou a ser uma metáfora do jogo capitalista.

O Movimento Olímpico moderno renasceu da preocupação de universalizar a instituição esportiva. Em junho de 1894, diante de uma plateia que reunia representantes de 12 países para um congresso esportivo-cultural em Paris, o francês Pierre de Freddy, mais conhecido pelo título de Barão de Coubertin, apresentou a proposta de recriação dos Jogos Olímpicos para a capital francesa em 1900, como parte das comemorações da virada do século. A proposta foi aprovada por unanimidade, mas acabou sendo antecipada para 1896, na Grécia, em deferência aos criadores dos jogos originais.

A seleção feminina de handebol é a atual campeã mundial e tem grandes chances de levar medalha nas Olimpíadas Rio 2016

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Entrevistas com os heróis

Na Cartografia do Imaginário Esportivo, a autora classifica os atletas em cinco categorias: Fase de iniciação, fase de ingresso no esporte, fase profissional, fase de afastamento e fase de recolhimento. Ela analisou de forma individual o universo do atleta na atualidade em diferentes momentos de suas carreiras.

Manifestando seu lado jornalista, a autora passa a contar histórias de vida. Fala das escolhas, da infância, da rotina e das jornadas dos atletas. Para a fase de iniciação, entrevista uma praticante de ginástica olímpica. Sempre confrontando com os autores que lhe servem de referência.

Em outra entrevista fala de um atleta do voleibol, que na década de 1980 se transformou no segundo esporte mais praticado no Brasil, perdendo apenas para o futebol. Fala dos sacrifícios e dos custos a que precisa se submeter.

Na longa jornada empreendida pelo herói são inúmeras as provações concebidas para que se tenha a certeza de que o pretendente a essa condição possa realmente sê-lo.

O terceiro entrevistado é atleta do futebol, que tem para a cultura brasileira um significado particular. Ele mobiliza multidões, apresenta e reforça padrões de comportamento e se apresenta como um objetivo de desejo e realização profissional. Crianças e pais vislumbram no futebol a realização de um sonho que envolve fama, projeção e dinheiro.

Na Chegada à Ilha da Bem Aventurança, a autora entrevista uma jogadora de basquete que foi campeã mundial e vice-campeã olímpica, que iniciou precocemente e depois se retira das quadras para iniciar nova etapa de vida.

Para ilustrar a fase de recolhimento do atleta, ela entrevistou um esportista que conquistou os títulos mais almejados. O judô começou na sua vida por indicação terapêutica na infância.

Em suas conclusões, a autora afirma que o pragmatismo que favorece a fama caracteriza o esporte na atualidade e imprime a condição mítica de alguns atletas, racionalizando o mito, esvaziando-o de sua permanência mítica. Se antes o discurso olímpico, e a prática, eram divinos, hoje são mercantis e ideológicos, destituídos de conteúdo semântico. Quem escapa desta armadilha consegue superar o individualismo e trazer de volta os símbolos da aventura para a comunidade, “conquistando seu lugar no pódio das realizações humanas”.

Sobre Adriana Menezes

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